terça-feira, 14 de junho de 2011

PANTALEÃO E A ESTÓRIA DA LAGOA VIAJANTE-CHICO ANISIO


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NÃo ERA A PRIMEIRA VEZ que o Dr. Delegado dava o prazer de sua presença. Sempre
que podia, ele vinha à casa de Pantaleão, ávido por ouvir uma estória sucedida e vencida por aquele homem bom contador. Mas a noite não estava boa para Pantaleão Pereira Peixoto. O cobreiro que lhe apareceu na sola do pé era o responsável pela desvontade que sentia. Já fizera toda sorte de meizinhas, o pé fora rezado por Candinha Rezadeira, responsável por muitas curas mais difíceis, mas nada resolvera. E isto lhe dava leseira, uma moleza bastarda, uma pontinha de febre. — Quer que eu mande o doutor aqui, Seu Pantaleão? — sugeriu o delegado na pergunta prestativa. — Quero não, Doutor Delegado. Se é pra morrer, que eu morra de morte morrida. O doutor vindo, vai é me matar mais depressa. Dona Terta trouxe a compressa e lhe envolveu o pé num farrapo de morim. — Quando Seu Pantaleão melhorar — era Pedro Bó quem falava — vai contar a estória da lagoa viajante. Pra que Pedro Bó foi lembrar? Os olhos do velho encheram-se de lágrimas. Emoção visível fluindo nele. O delegado notou. E sabia da fraqueza dele pelo gosto que tinha em contar um caso. — Lagoa viajante não existe — falou, provocante, propositalmente provocante. — O senhor pode nunca ter visto, mas que existe, existe que seu amigo aqui já viu. — Conte meu velho... Não era preciso pedir outra vez. O pé subiu para o assento da cadeira, os dedos da mão corriam entre os dedos do pé, o rosto já tomava outro aspecto. — O doutor Delegado já ouviu falar na Lagoa dos Bragas? — Em Pernambuco?
— Essa, doutor. A Lagoa dos Bragas, em Pernambuco. Conhece, não conhece? Pois bom... A lagoa era grande que mais parecia uma fatia farta de mar. Grávida de peixes onde, dizem, havia traíras de cujas espinhas podia-se fazer dúzias de cabides. Era uma tarde de inverno. Frio não fazia, mas descia da serra um ventinho mais fresco do que o costumeiro e que obrigava o povo a levantar a gola da camisa, na proteção do que chamavam de frio. Mas não era frio, repito. Era apenas um calor menor, um frescor de fim de tarde. Já tinham falado de um peixe grande, na Lagoa dos Bragas. Muitos haviam dito ter visto o peixe "com esses olhos que a terra há de comer", e garantiam que o peixe não viria em anzol nenhum, nem em tarrafa pequena. Cada um afirmava um tamanho diferente do peixe, mas nenhum deles calculava em menos de trinta metros. Pantaleão não era dos que acreditam em qualquer conversa. Sabia que peixe de trinta metros não podia existir na Lagoa dos Bragas, mas admitia que uns vinte o peixe medisse. Por isso levou muita isca. Catorze vacas, foi o que levou. Pegou a primeira e a prendeu no anzol, atirando-a ao rio ainda viva. Tinha que ser assim. Viva, a vaca mexia- se dentro da água chamando a atenção do tal peixe de trinta metros — que deviam ser, quando muito, uns dezoito. — Esse peixe eu pego, que eu não vou perder minha viagem de casa até a Lagoa Paciência. ..
— Mas não era Lagoa dos Bragas, Seu Pantaleão? — estranhou o delegado, bebendo o café adocicado pela rapadura raspada. — A lagoa era dos Bragas, porque ficava na terra dos Bragas, mas o nome dela era Lagoa Paciência. Grande e perigosa, doutor, que nela morreram mais de quinze...
— Quinze pessoas?
— Não, Pedro Bó; quinze hipopoto. Oh, homem pra perguntar besteira. Sabe de uma coisa? Não conto mais nada, não. E já calçou a chinela para ir embora.
— Conte, meu velho. Voltou a sentar. — Você botou a vaca no anzol e sacudiu na lagoa. Siga daí.
— Pois bom...
Daí, a espera pelo peixe maldito que um dia seria fisgado. E se havia alguém que pudesse com ele, este alguém estava ali. Era Pantaleão Pereira Peixoto, segurando o caniço com força, o olho único parado na água barrenta. E o peixe chegou. Pantaleão sentiu a fisgada e firmou ainda mais o caniço que se vergava na luta que começava. Não havia quem o ajudasse. Ele dava um arranque com a vara, e o peixe botava a cabeça fora da água. Não devia medir os trinta metros que falavam, mas talvez uns quarenta, porque pela boca dava para que se calculasse. O caniço mostrava que em breve se quebraria. Era preciso uma providência. Pantaleão lembrou das outras vacas que levara. Uma já havia sido comida pelo peixe, mas restavam treze pastando ali junto. Ao sentir que o peixe o arrastaria, pegou as treze vacas e nelas amarrou a linha.
— Linha de anzol?
— Não, Pedro Bó. Linha do Ferroviário. Peguei o ponta-direita, os meia, o ponta-
esquerda e o centrefor e amarrei nas vaca. Pergunta mais uma besteira pra ver se eu não lhe dou um bofete.
— Não se incomode com Pedro Bó — disse o delegado. — Continue. Amarrou
as treze vacas e aí?
— As vacas fazendo força, doutor, e nada de arrastar o peixe. Já o sol se amornava, eu pensei comigo: "anoitece e não tiro esse bicho da água". Mas eu não sou homem de desistir de empreitada. Comecei a puxar também, junto com as vacas. Cadê que o peixe saía? Diabo de peixe. Vai ver essa peste só sai com a polícia. Cheguei a pensar em chamar o senhor pra dar voz de prisão àquele peixe maldito. Foi quando eu dei fé que pela estrada iam passando doze homens que trabalhavam nas terras do coronel Firmino. Gritei, os cabras vieram, eu contei o que se passava, eles foram buscar cinco carros de boi pra me ajudar na tarefa Engatei os carros de boi junto com as vacas e ainda mais os doze homens de coronel Firmino e ainda mais eu, tudo puxando. — Puxando o peixe? — Não, Pedro Bó. Puxando tua mãe, pois não era tua mãe quem estava na Lagoa dos Bragas? Pedro Bó. .. tenha paciência. Se eu contar o resto eu estrale. Pedidos, súplicas, solicitações chorosas de Dona Terta. — Pois bom! As juntas de bois e a força das vacas, aliadas ao esforço dos homens, começaram a tarefa. Não era serviço fácil, porque a força do peixe era imensamente maior do que a imaginável. Rangiam as rodas dos carros de boi, as vacas mugiam mugidos sofridos, os homens gemiam com os músculos tensos, à flor da pele, querendo estourar. Pantaleão ordenava a hora de mais força com os "ôôpp" e os "êêêppp" que gritava a cada momento. O peixe continuava sua luta. Não poderia ser um peixezinho qualquer de cinqüenta ou sessenta metros, mas alguma coisa maior. — Será que esse peixe não é um navio? — admitiu um dos homens que ajudavam. — Não conversa. Faz força, diacho. Ôôôppp. Mas a força era vencida pela força do peixe que até parecia trazê-los para a lagoa, em vez de dela sair. Lutaram por um tempo que pareceu infinito. Até que perceberam ser inútil continuar. O peixe não saía da lagoa. Quer dizer, então, que não arrastaram o peixe? — perguntou o delegado, sem esconder que lamentava a derrota. — O peixe, não, mas arrastamos a lagoa até a cidade. — O quê? — o delegado pôs-se de pé diante do que julgou uma mentira. — Arrastaram uma lagoa até a cidade? — Esse causo findou-se em Belo Horizonte. Va lá e veja se não tem uma lagoa no meio da cidade.

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