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sexta-feira, 18 de abril de 2025

NÃO SE PÕE AMENDOIM NOS OUVIDOS-CHICO ANISIO-


Com tantos lugares maiores e mais práticos, o menino achou de enfiar o amendoim exatamente no ouvido. Ouvido esquerdo, que foi o escolhido por comodidade, visto tratar-se de um menino canhoto.
A família, na Tijuca, em meio ao ajantarado do domingo, mesmo na hora em que o pai procurava uma sintonia melhor para escutar as corridas, ficou em pânico por causa de uma frase.
— Mãe — disse o menino que enfiara o amendoim no ouvido —, não estou ouvindo
direito.
— Não está ouvindo direito, como? — indagou a mãe.
— Como? — inquiriu o menino dando uma inflexão diferente ao advérbio.
— Tua mãe está perguntando — intrometeu-se o pai abandonando, durante o que
dizia, a sintonia no rádio — como é que você não está ouvindo direito. Entendeu?
— O senhor está perguntando se eu entendi? — voltou o menino, sentado no lugar ao
lado da cabeceira.
— É, entendeu? — tornou o pai, levando à boca, com um ligeiro auxílio indicador-
polegar, um pedaço de rabada.
— Entendeu o quê? — desentendeu o menino.
— Você está surdo? — gritou a irmã da outra cabeceira que ficava sob a Ceia do
Senhor.
— Será que ninguém compreende o que eu falo? — vociferou o menino, já se pondo
de pé. — Eu estou dizendo que não estou ouvindo direito.
— Você não está ouvindo direito? — insistiu a mãe, já tão aflita, que nem ligava mais
para a rabada que esfriava no prato.
— O que foi que a senhora disse? — questionou o menino, retornando mais calmo ao
seu assento.
— Esse menino está doido — admitiu o pai, voltando a tentar captar a narrativa dos
páreos.
— Doido, não — contestou a mãe —, que ele não é maluco. Você é louco?
— Um pouco, mãe — respondeu o menino, pensando que a mãe lhe perguntara ser
mouco.
— Não estou entendendo coisa nenhuma — reagiu a irmã numa irritação que
mostrava que ela não entendia coisa nenhuma. — Fala comigo, Geraldinho. O que é que
há?
— Falou comigo? — quis saber o menino que enfiara um amendoim no ouvido.
— Ele está crecré — resolveu a irmã, voltando ao caqui, que era muito mais
interessante do que aquele diálogo absurdo.
Por alguns momentos, sem falar, todos comeram. Rabada ou caqui, feijão ou
melancia. O silêncio era tão absoluto que o pai quase conseguiu achar a estação que
procurava. Aí, o menino falou.
— Mãe, não estou ouvindo quase nada.
— Você já disse isso.
— O que foi que a senhora disse? — perguntou o menino que não estava ouvindo
quase nada.
— Eu disse que você já disse que não está escutando direito! — irritou-se a mãe com
a boca cheia de rabada.
— Como? — argüiu o menino com o ouvido cheio de amendoim.
— Eu acho melhor botar esse garoto de castigo — sugeriu o pai, com um dedo no dial, outro na polenta.
— Foi você quem falou, Terezinha? — perguntou o menino quase surdo ao ouvir a
voz do pai.
— Foi o pai — volveu a irmã de cabelos longos e paciência cortada rente.
— O quê? — era o menino quem perguntava.
— Geraldinho! — bradou o pai, deixando o rádio de lado numa atitude tão absurda
quanto esta estória. — Presta atenção. Olha para mim. Está escutando o que eu estou
falando?
— O senhor está falando? — sussurrou o menino, preso entre as mãos do pai que lhe
deixavam resquícios de rabada e polenta nos ombros.
— Estou! — gritou o pai, com um soco tão forte na mesa que fez a concha mergulhar
no feijão.
— Não adianta. Eu não estou escutando quase nada — monocordiou o menino
Geraldinho.
— Sabe o que é que eu acho? — ponderou a irmã. — Eu acho que o Geraldinho não
está escutando direito.
— Se ele não está escutando direito — ponderou de novo a mãe — por que não avisa?
Está escutando agora, Geraldinho?
— O quê?
— Está escutando agora? — repetiu mais alto o pai.
— Ahn?
— Está escutando? — esganiçou-se a irmã da cabeceira.
— Olhem. Eu já disse, e vocês não entendem. Eu não estou escutando direito — falou
Geraldinho, já irritado.
— Ele não está escutando direito — traduziu a mãe, tomando uma visível atitude de
defesa do filho que tinha colocado amendoim no ouvido.
— Mas por quê? — indagou o pai apoplético.
— Como? — murmurou o menino, numa pergunta a medo, pela notória apoplexia
paterna que geralmente dava motivo a surras homéricas.
O pai esqueceu as corridas de Pernambuco, que tentava escutar, e pediu um lápis que
lhe foi entregue pela filha, em meio às folhas de um caderno escolar. O pai escreveu, com
letras de imprensa, a pergunta:
— DESDE QUANDO VOCÊ NÃO ESTÁ ESCUTANDO DIREITO?
Empurrou, com má vontade, o caderno para o lado do menino.
— Quer saber desde quando eu não estou escutando direito? — quis assegurar-se o
menino de ter lido certo.
— É, Geraldinho — disse a mãe muito maternal —, desde quando?
— Como? — perguntou Geraldinho muito trêmulo.
O pai respondeu passando o dedo sob a frase que esfregava na cara do menino.
— Desde que eu enfiei um amendoim no ouvido.
Tiraram o amendoim, deram-lhe uma surra e o mandaram para fora da sala, em sinal
de protesto.
O menino foi e voltou chorando, para se sentar na cadeira em frente à tevê.
— Fazendo a gente ficar doida, esse moleque! — comentou a mãe, tirando a mesa do
ajantarado.
— Como? — perguntou o menino, que acabara de enfiar um amendoim no ouvido
direito.

sábado, 24 de março de 2012

CHICO ANYSIO EM FIM JUSTIÇADO PELA GLOBO



Chico Anysio nos deixa e nos deixa saudades. E aqui fico vendo as homenagens da Rede Globo para aquele que foi o maior humorista da emissora, e fico lembrando que a Rede Globo, desde 1995 com o fim de Chico Anysio Show ( que foi o primeiro programa humorístico a usar o videoteipe já em 1960 permitindo que Chico Anysio contracenasse com ele mesmocomeçaram a restringir os programas de Chico.


Como ele era contratado da emissora permanentemente tentaram enfia-lo nos Trapalhões em 1984 mas claro que não daria certo Renato Aragão e Chico juntos, e então inventaram uma saída colocaram ele como ator, claro que em uma novela humorística, 




Que rei sou eu? de 1989 com um personagem rídiculo chamado Taji Namas essa novela colocou outros atores humorísticos como convidados que estavam na geladeira como Dercy Gonçalves, Tonico Pereira, Cazarré, Milton Gonçalves entre outros.


Devo aqui salientar que Chico Anysio só foi contratado da Rede Globo em 1971 porque estava fazendo grande sucesso com o Chico Anysio Show, mesmo assim ele não teve o programa dele imediatamente. 




Para extreiar na Globo inventaram um programa para ele que se chamava ´´ Você tem tempo tempo `` que ao contrário do nome não tinha muito tempo só uns quinze minutos depois do Jornal Nacional.






Ai Chico inventou uma novelinha cômica no mesmo horário chamada ´´ Linguinha x Mr Yes``no qual ele fazia os dois personagens principais que era o Linguinha e o seu pai o Linguote.A novelinha atingiu altos índices de audiência da tv na época. O sucesso foi tanto que a Som Livre lançou, em novembro de 1971, o LP com temas do programa.


Com esse sucesso todo, não teve como a Rede Globo não produzir o Programa Chico City, de 1973 até 1980.Com o sucesso ele criou uma outra novelinha em 1975, Azambuja & Cia. que não teve tanto sucesso quanto Linguinha.








Depois que acabou Chico City, ele ficou parado por dois anos até que produziu o programa Chico Anysio Show que foi de 82 até 90 , ai ele caiu no ostracismo fazendo papeis cômicos até ter a idéia de fazer um programa que pudesse colocar alguns atores cômicos que estavam na geladeira ao mesmo tempo.


A Escolinha do Professor Raimundo que não era uma idéia nova ( já que Professor Raimundo foi o primeiro personagem de Chico Anysio e que entrava em alguns programas da emissora , como o humorístico Balança mais não cai que foi o primeiro programa da rede globo que Chico se apresentou e que tinha como alunos os saudosos Zé Trindadade e a estréia de Mussum ) 



A ideia de transformar o quadro em programa solo foi de Chico Anysio. Sem a supervisão da Rede Globo. Estreou no dia 4 de agosto de 1990, com direção de Cassiano Filho, Paulo Ghelli e Cininha de Paula. Gravado inicialmente nos estúdios da antiga TV Tupi, na Urca, e depois na Cinédia e nos estúdios do Renato Aragão, todos no Rio de Janeiro, a Escolinha ia ao ar aos sábados, às 21h30 da noite. Estreou com vinte alunos, e a partir de 29 de outubro, com a adição de mais três, passou a ser exibida de segunda a sexta-feira, às 17h30 da tarde.
No dia 11 de junho de 1992 foi ao ar o programa de número 500. A Escolinha parou de ser exibida aos sábados, passando para as noites de quarta-feira, mas depois de um tempo a mudança foi desfeita. Já então o elenco contava com 37 atores, entre alunos e personagens de apoio.
Em 1995 as edições vespertinas começaram a ser reprisadas. O programa de sábado passou a ser transmitido às quartas-feiras, voltando para o sábado e indo parar até nas tardes de domingo, reflexo da queda inevitável de audiência - talvez devido à super exposição do formato, exibido seis vezes por semana durante cinco anos ininterruptos. Como as mudanças não deram resultado, a Escolinha saiu do ar em maio de 1995.
Em 1999, Chico Anysio decidiu levar a Escolinha pelos teatros do Brasil e sua turnê teve o pontapé inicial dado em 8 de outubro de forma gratuita no Shopping Grande Rio, em São João de Meriti, no Rio de Janeiro. No mesmo ano voltou a ser exibida na Rede Globo, agora como quadro do programa Zorra Total, permanecendo no ar até outubro de 2000.
Uma última temporada, novamente como programa solo e com 25 minutos de duração, foi exibida de segunda a sexta-feira entre março e dezembro de 2001.
Extraído da Wikipédia.

Ao mesmo tempo ele trabalhou na supervisão dos Trapalhões e fez o programa Som Brasil sendo apresentador.
Em 1991, criou os Estados Unidos de Chico City e quatro anos depois Chico Total .
AI, no mesmo ano, começou as sua fase de ator de novelas, fez Engraçadinha,alguns quadros no Zorra Total e Terra Nostra.
Ai a Globo deu a ele a última oportunidade de um programa solo o Belo e as Feras, que durou 4 meses em 1999.



Dai em diante ele era um tipo de tapa buraco em novelas como coadjuvante. Em Sitio do Picapau Amarelo e outras. 
E agora a Globo News , mostra com orgulho toda hora os melhores momentos desse ator que deveria ser mais honrado quando vivo pela emissora.E o própio Chico dizia que o humorista é insubstituivel mais sera que a Rede Globo acredita mesmo nisso já que substituiu Chico pelo Zorra Total e até mesmo pelos Cassetas.



terça-feira, 14 de junho de 2011

DOMINGO EM MADUREIRA-CHICO ANISIO-EXTRAÍDO DO LIVRO O ENTERRO DO ANÃO


Depois do primeiro cantaram todos os galos da rua.
Era domingo,
no entanto, um dia em que os galos não têm necessidade de acordar
tão cedo assim.
— Cocorocó!... — fez o galo de Climério, o primeiro, sempre, a
cantar.
Climério acordou com o canto, habituado que estava. E era do-
mingo. Domingo! O dia da sua folga. Serem cinco da manhã não tinha
tanta importância quanto a importância que tinha o fato de ser do-
mingo.
Climério abriu a bocarra num bocejo longo e bom. Emitiu um som
grunhido na espreguiçada comprida, reconfortante chiado, botando
fim no bocejo. Coçou a perna ao comprido, deu mais jeito nos cabe-
los. Um comecinho de dia entrava pela janela, duvidando da cortina
— falha da veneziana. A mulher abriu os olhos e lembrou que era
domingo.
— Dorme, Climério, ainda é cedo.
— Cinco horas.
— É domingo.
Ele fez que não ouviu. Achou o par de chinelos debaixo de sua
cama, vizinho ao urinol — mau hábito que a mulher insistia em pre-
servar — e, a arrastá-los sem pressa, dirigiu-se ao banheiro.
A mulher ficou na cama, forçando a volta do sono.
A torneira despejou uma água quase morna. Era janeiro. Um do-
mingo de janeiro em Madureira. Climério, de mãos em concha, lavou
o rosto três vezes. Não fez barba. Era domingo, dia de folga pra
cara. Gargarejou com escândalo. Urinou e urinou-se.
Esqueceu de dar descarga.
Depois, voltou para o quarto, onde a mulher já se sentava na
cama, na oração de acordar. Persignou-se ao final da prece.
O despertador barato indicava cinco e quinze. A mulher, por se
acordar, iria à missa das seis.
Climério abriu a janela para o dia que nascia. O dia entrou no
quarto, espalhando-se sem pressa, por saber que era domingo.
Climério desamarrou o cadarço do pijama. Deixou que as calças
caíssem. Saiu delas, que ficaram amarrotadas no chão. Vestiu uma
roupa velha. Era domingo, não iria trabalhar, não teria que bater
ponto na repartição.
Julieta, sua esposa, sugeriu que ele acordasse as meninas e
Julinho. Foi, depois, para o banheiro, onde sentou confortável pa-
ra o primeiro xixi de jato que acalentava. Deu descarga, no final.
De longe chegaram os cantos de outros galos. Ou dos mesmos.
Segundo aviso do dia. Climério se espreguiçou, bateu na barriga
enorme.
— São gases... — sentenciou, para explicar o ruído muito oco e
um tanto surdo, quase baticum de bumbo, que as pancadas produziam.
Julieta pôs-se nua. Climério estendeu-lhe lerdo a combinação
pendida e que ela pôs sobre a pele. Julieta não usava nem calça
nem sutiã. Tinha cara de sofrida a lhe aumentar a idade. Era magra
c agrisalhada. Sofria de reumatismo e era dada a varizes, por tanto ficar de pé no seu trabalho diário. Em casa fazia tudo, inclusive os uniformes dos meninos que estudavam num colégio estadual.
Climério empurrou os sapatos para debaixo da cama. Sentiu os
pés confortáveis no velho chinelo gasto. Saiu do quarto. Tirava
resto de sono dos olhos.
De cama em cama seguiu, acordando os filhos: as três meninas e
Júlio, o filho do seu encanto que servia na Aeronáutica.
— Que horas são?
— São cinco e meia.
As filhas se levantaram. Não queriam perder a missa das seis.
Muito mais aproveitavam o dia lindo que vinha. Podiam até ir à
praia. A de Ramos, como sempre.
Julinho demorou mais. Tinha tempo. Ronronou. A pelada a ser
jogada no campo do Confiança só começaria às oito. Dormiu o resto
do sono. Podia. Era domingo. Dia de glória! Uma pena que sempre
fosse tão curto e um só por semana.
Climério foi à cozinha no automatismo de hábito. O café de on-
tem à noite requentou em banho-maria. Julieta entrou depois, ten-
tando, com o polegar, coçar as costas no ponto em que sentia co-
çar. Acompanhava a coceira com um bocejo prolongado. Pediu socorro
ao marido.
— Coça aqui.
Ele coçou. Custou a achar o lugar.
— Todo mundo já acordou?
— As meninas. Júlio, não.
— Você já viu o leitão?
— perguntou, sem interesse, enquanto tirava a tampa do bule que requentava o café feito de véspera, preguiça que cultivava num comodismo idiota.
— O leitão cabe no forno?
— Hum, hum — ela fez que sim.
Do banheiro vinha o ruído de dentes que se escovavam. Quase às
seis entraram as filhas, já vestidas para a missa. Entraram as
três em vestidos cor-de-rosa. Cada uma fez a parte que lhe cabia
fazer. O leite foi recolhido por uma, o pão, por outra. Dircinha
acendeu o fogo que aqueceria a leiteira. Café com leite tomavam
somente ao voltar da missa. Climério sabia o momento de pôr o leite no fogo. Só que hoje antecipara uma hora esse costume, por ter
levantado às cinco, e não às seis, tempo certo de levantar aos do-
mingos.
Julieta e as três mocinhas tomaram um cafezinho e, depois,
apressadas, saíram à procura de Jesus. No domingo comungavam.
Climério foi ao quintal, reparando no que havia a ser feito. A
tela do galinheiro... a cerca que separava o terreno do vizinho...
a velha calha do alpendre... uma torneira enjambrada ... Havia
sempre umas coisas a arrumar no domingo.
O filho apareceu com a chuteira escondida numa sacola "Adi-
das".
— Vai jogar?
— Bater uma bola.
Perguntou por perguntar. Respondeu por responder.
Saíram antes que as filhas regressassem da igreja. Julinho pe-
gou o ônibus, Climério entrou no bar.
— Duas garrafas de pinga! — mandou ao botequineiro, também recém-acordado, olho inchado, cara marcada de travesseiro.
— Duas?
— Duas. Praianinha. É pra fazer uma batida. Tem limão aí, Seu
Severo?
Tinha, e do sumarento. Ele levou uma dúzia.
Fazia muito calor, e o sol já tinha chegado, prometendo 38, na
hipótese mais mansa.
Climério guardou os limões, já cortados, na panela. O relógio
consultado informou que era hora de pôr o leite a ferver.
Ele fez. Deu de comer aos passarinhos queridos, com beijos es-
peciais a cada um que servia. Assobiou agudo, fez cantar o sabiá.
Sete e meia a mãe e as filhas retornaram da igreja com o Jor-
nal dos Sports, que nunca se esqueciam de comprar para Climério.
— Você tem que consertar a tela do galinheiro — era a esposa
lembrando o que ele já sabia.
O leite chiou no fogo, transbordante. Ele correu. Tomaram café
com leite, e o pão os cinco comeram, barrado de margarina.
— Mamãe, nós vamos na praia — avisaram as três filhas, sumindo
no corredor para vestir os biquínis, sem esperar que a mãe concor-
dasse ou desse contra.
Julieta recolhia a louça do desjejum. Climério chupando os
dentes, palito inútil na boca, checava a escalação dos times pra
logo mais.
O compadre apareceu eram quase nove horas. Trazia na cara a
cara que a gente usa aos domingos. Com ele, vinha a mulher — coma-
dre Emerenciana
— muito alegre, como sempre; como sempre muito gorda.
— Quem é vivo sempre chega!
— Climério estreitou o compadre num abraço comovido.
— Bote água no feijão — disse Juca a Julieta e depois mandou
risada.
Num canto, as duas comadres contavam suas mazelas.
— E o reumatismo, comadre?
— No verão não incomoda. As pernas é que me doem, que já nem
sei o que faça.
— Eu sei de uma receita que o caboclo da Onilda ensinou.
A chegada dos compadres endomingou mais a casa.
— Como é? Tem um leitão?
— era Juca quem falava.
— É leitão mesmo, ou vocês mataram um gato e assaram? — e gargalhou de dobrar, engasgando-se.
— São Brás! São Brás! — invocava a mulher com aflição, enquan-
to Climério, rindo, lhe dava tapas nas costas.
— Esse Juca não tem remédio — comentava Julieta, enquanto se
dirigia, com a comadre, à cozinha para cuidar do almoço.
— Deixe, que eu faço a batida — disse Juca, já tirando o paletó e a gravata.
Às dez horas tudo havia mudado um pouco de jeito. Emerenciana
usava um vestido amarfanhado — Julieta emprestara — e Juca vestia um short.
Uma garrafa e dois copos acompanharam os compadres, que se foram pro quintal com pregos, martelo, arame, apetrechos de conserto. Juca ia dar uma mão nos consertos a fazer.
— O galinheiro é comigo! — gritou Juca.
— Manda brasa!
A disposição de Juca cresceu com a batida que Climério lhe es-
tendeu. Comentou:
— Tá de lascar! Vira aqui.
E ele bebeu a oitava de um só gole.
O vizinho apareceu com um prato de bolinhos — batata com baca-
lhau — tira-gosto que chegava no momento mais preciso.
Deu onze horas na igreja. O filho voltou suado, restos de lama
no corpo.
— 5x2 — comunicou. — Eu fiz os dois, de cabeça.
Ficou, ainda sem banho, ajudando a Juca e ao pai, que traba-
lhavam o possível na cerca e na batidinha.
— Tá demais, essa batida.
As galinhas, irritadas, ciscavam sem precisão. Cacarejavam e
voavam, odiando o toque-toque do barulho do conserto que os compa-
dres faziam. A cerca não deu trabalho. Em meia hora acabaram.
As filhas, vindas da praia no Nash verde de Rui, namorado de
uma das três, chegaram quinze pras duas.
— Boa tarde, Seu Climério
— Rui cumprimentou solene, sem nenhuma intimidade.
Rui juntou-se à mão-de-obra dos três que já trabalhavam — Juca, Julinho e Climério — e a torneira foi tirada para o reparo
preciso.
— Um pedacinho de sola — pediu Seu Juca, entendido.
Climério providenciou, cortando um velho sapato.
— Comé? Não se bebe nada? — inquiriu Juca, risonho, voz já sa-
indo difícil, pastosa, meio embrulhada.
— Tamos aqui, cidadão! — e Climério encheu o copo de modo
desajeitado, batida caindo farta pelas bordas, pela mão.
Na cozinha, as comadres. Entremeando a conversa sobre a vida,
cortavam as frutas a usar na salada costumeira.
A filha mais velha — Irene — secando o cabelo ao sol, cantava
Roberto Carlos com uma voz desagradável. A do meio, no banheiro,
fazia qualquer coisinha antes de encarar o chuveiro. A mais nova,
Suzaninha, molhava o sofá de plástico com o maiô ainda úmido.
Rui despediu-se e se foi para voltar pro leitão. O forno aceso
trazia à cozinha o cheiro bom do leitão que já dourava.
Júlio brigava e brigava pedindo prioridade para usar o banheiro.
A calha velha do alpendre, como num esfregar de olhos, Juca
deixou como nova. Fez por merecer o prêmio: a batida de limão que
Climério lhe estendia.
— Nessa aqui eu caprichei.
Provou.
— Está uma brasa!
Julinho reapareceu com a camisa justa, manga curta e mais do-
brada, dando jeito no topete — cabeleira demodée que insistia em
usar. Mostrou que ia sair.
— Não vai almoçar, Julinho?
— Não dá, mãe, tou com pressa. Como um troço por aí.
Pegou o rádio de pilha e saiu para o estádio. Ia ver o Olaria
enfrentar o Madureira.
Às quatro Rui retornou, trazendo numa sacola meia dúzia de garrafas que foram pra geladeira. Santas Brahmas do domingo!
O leitão foi posto à mesa. Copos cheios de batidas eram fácil
devorados em goles longos e frios.
Na tevê, o animador pregou um sorriso na cara. Era domingo,
dia bom pra sorrir.
Na mão de Emerenciana surgiram as Brahmas geladas.
— Vira, vira, vira.. .
— Vira, vira, vira. . .
Beberam as seis e mais seis que Rui pegou no boteco.
Na rua, as crianças jogavam um racha com o gol demarcado por
tijolos. Era domingo, quase não passavam carros.
Comeram falando muito e muito desencontrado. Ninguém prestava
atenção ao que os outros falavam e cada um respondia à pergunta
que queria, sem se importar se a resposta levava endereço certo.
Saíram Rui e as moças para um cinema provável.
O arroto de Climério avisou que ele acabara.
— Saúde — lhe disse Juca, rindo de cuspir farofa.
As comadres, na cozinha, rasparam os pratos no lixo. Conversavam sobre o aumento que os maridos garantiam receber dentro de pouco tempo. Depois, então, se ensinaram novos pontos de tricô.
— Um cafezinho, compadre — ofereceu Julieta, com um sorriso
maroto.
Era tarde. Já dormiam. Climério e Juca, os compadres, já não
prestavam atenção ao que se passava em volta. Dormiam...
— Dormindo!
— Deixa.
Afinal, era domingo.

PANTALEÃO E A ESTÓRIA DA LAGOA VIAJANTE-CHICO ANISIO


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NÃo ERA A PRIMEIRA VEZ que o Dr. Delegado dava o prazer de sua presença. Sempre
que podia, ele vinha à casa de Pantaleão, ávido por ouvir uma estória sucedida e vencida por aquele homem bom contador. Mas a noite não estava boa para Pantaleão Pereira Peixoto. O cobreiro que lhe apareceu na sola do pé era o responsável pela desvontade que sentia. Já fizera toda sorte de meizinhas, o pé fora rezado por Candinha Rezadeira, responsável por muitas curas mais difíceis, mas nada resolvera. E isto lhe dava leseira, uma moleza bastarda, uma pontinha de febre. — Quer que eu mande o doutor aqui, Seu Pantaleão? — sugeriu o delegado na pergunta prestativa. — Quero não, Doutor Delegado. Se é pra morrer, que eu morra de morte morrida. O doutor vindo, vai é me matar mais depressa. Dona Terta trouxe a compressa e lhe envolveu o pé num farrapo de morim. — Quando Seu Pantaleão melhorar — era Pedro Bó quem falava — vai contar a estória da lagoa viajante. Pra que Pedro Bó foi lembrar? Os olhos do velho encheram-se de lágrimas. Emoção visível fluindo nele. O delegado notou. E sabia da fraqueza dele pelo gosto que tinha em contar um caso. — Lagoa viajante não existe — falou, provocante, propositalmente provocante. — O senhor pode nunca ter visto, mas que existe, existe que seu amigo aqui já viu. — Conte meu velho... Não era preciso pedir outra vez. O pé subiu para o assento da cadeira, os dedos da mão corriam entre os dedos do pé, o rosto já tomava outro aspecto. — O doutor Delegado já ouviu falar na Lagoa dos Bragas? — Em Pernambuco?
— Essa, doutor. A Lagoa dos Bragas, em Pernambuco. Conhece, não conhece? Pois bom... A lagoa era grande que mais parecia uma fatia farta de mar. Grávida de peixes onde, dizem, havia traíras de cujas espinhas podia-se fazer dúzias de cabides. Era uma tarde de inverno. Frio não fazia, mas descia da serra um ventinho mais fresco do que o costumeiro e que obrigava o povo a levantar a gola da camisa, na proteção do que chamavam de frio. Mas não era frio, repito. Era apenas um calor menor, um frescor de fim de tarde. Já tinham falado de um peixe grande, na Lagoa dos Bragas. Muitos haviam dito ter visto o peixe "com esses olhos que a terra há de comer", e garantiam que o peixe não viria em anzol nenhum, nem em tarrafa pequena. Cada um afirmava um tamanho diferente do peixe, mas nenhum deles calculava em menos de trinta metros. Pantaleão não era dos que acreditam em qualquer conversa. Sabia que peixe de trinta metros não podia existir na Lagoa dos Bragas, mas admitia que uns vinte o peixe medisse. Por isso levou muita isca. Catorze vacas, foi o que levou. Pegou a primeira e a prendeu no anzol, atirando-a ao rio ainda viva. Tinha que ser assim. Viva, a vaca mexia- se dentro da água chamando a atenção do tal peixe de trinta metros — que deviam ser, quando muito, uns dezoito. — Esse peixe eu pego, que eu não vou perder minha viagem de casa até a Lagoa Paciência. ..
— Mas não era Lagoa dos Bragas, Seu Pantaleão? — estranhou o delegado, bebendo o café adocicado pela rapadura raspada. — A lagoa era dos Bragas, porque ficava na terra dos Bragas, mas o nome dela era Lagoa Paciência. Grande e perigosa, doutor, que nela morreram mais de quinze...
— Quinze pessoas?
— Não, Pedro Bó; quinze hipopoto. Oh, homem pra perguntar besteira. Sabe de uma coisa? Não conto mais nada, não. E já calçou a chinela para ir embora.
— Conte, meu velho. Voltou a sentar. — Você botou a vaca no anzol e sacudiu na lagoa. Siga daí.
— Pois bom...
Daí, a espera pelo peixe maldito que um dia seria fisgado. E se havia alguém que pudesse com ele, este alguém estava ali. Era Pantaleão Pereira Peixoto, segurando o caniço com força, o olho único parado na água barrenta. E o peixe chegou. Pantaleão sentiu a fisgada e firmou ainda mais o caniço que se vergava na luta que começava. Não havia quem o ajudasse. Ele dava um arranque com a vara, e o peixe botava a cabeça fora da água. Não devia medir os trinta metros que falavam, mas talvez uns quarenta, porque pela boca dava para que se calculasse. O caniço mostrava que em breve se quebraria. Era preciso uma providência. Pantaleão lembrou das outras vacas que levara. Uma já havia sido comida pelo peixe, mas restavam treze pastando ali junto. Ao sentir que o peixe o arrastaria, pegou as treze vacas e nelas amarrou a linha.
— Linha de anzol?
— Não, Pedro Bó. Linha do Ferroviário. Peguei o ponta-direita, os meia, o ponta-
esquerda e o centrefor e amarrei nas vaca. Pergunta mais uma besteira pra ver se eu não lhe dou um bofete.
— Não se incomode com Pedro Bó — disse o delegado. — Continue. Amarrou
as treze vacas e aí?
— As vacas fazendo força, doutor, e nada de arrastar o peixe. Já o sol se amornava, eu pensei comigo: "anoitece e não tiro esse bicho da água". Mas eu não sou homem de desistir de empreitada. Comecei a puxar também, junto com as vacas. Cadê que o peixe saía? Diabo de peixe. Vai ver essa peste só sai com a polícia. Cheguei a pensar em chamar o senhor pra dar voz de prisão àquele peixe maldito. Foi quando eu dei fé que pela estrada iam passando doze homens que trabalhavam nas terras do coronel Firmino. Gritei, os cabras vieram, eu contei o que se passava, eles foram buscar cinco carros de boi pra me ajudar na tarefa Engatei os carros de boi junto com as vacas e ainda mais os doze homens de coronel Firmino e ainda mais eu, tudo puxando. — Puxando o peixe? — Não, Pedro Bó. Puxando tua mãe, pois não era tua mãe quem estava na Lagoa dos Bragas? Pedro Bó. .. tenha paciência. Se eu contar o resto eu estrale. Pedidos, súplicas, solicitações chorosas de Dona Terta. — Pois bom! As juntas de bois e a força das vacas, aliadas ao esforço dos homens, começaram a tarefa. Não era serviço fácil, porque a força do peixe era imensamente maior do que a imaginável. Rangiam as rodas dos carros de boi, as vacas mugiam mugidos sofridos, os homens gemiam com os músculos tensos, à flor da pele, querendo estourar. Pantaleão ordenava a hora de mais força com os "ôôpp" e os "êêêppp" que gritava a cada momento. O peixe continuava sua luta. Não poderia ser um peixezinho qualquer de cinqüenta ou sessenta metros, mas alguma coisa maior. — Será que esse peixe não é um navio? — admitiu um dos homens que ajudavam. — Não conversa. Faz força, diacho. Ôôôppp. Mas a força era vencida pela força do peixe que até parecia trazê-los para a lagoa, em vez de dela sair. Lutaram por um tempo que pareceu infinito. Até que perceberam ser inútil continuar. O peixe não saía da lagoa. Quer dizer, então, que não arrastaram o peixe? — perguntou o delegado, sem esconder que lamentava a derrota. — O peixe, não, mas arrastamos a lagoa até a cidade. — O quê? — o delegado pôs-se de pé diante do que julgou uma mentira. — Arrastaram uma lagoa até a cidade? — Esse causo findou-se em Belo Horizonte. Va lá e veja se não tem uma lagoa no meio da cidade.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

PANTALEÃO E O BOI BOZÓ -CHICO ANÍSIO

O NORDESTE É A TERRA DOS
 VAQUEIROS, mas nenhum deles com a competência e o
talento de Pantaleão Pereira Peixoto, montador escolado, cabra que conhece as manhas
e os segredos de qualquer montaria. Amestrador de cavalhadas incontáveis, rei na rédea,
um deus na sela, fazendo o cavalo trotar ou galopar pelo lugar que deseje.
Por saber dessas virtudes foi a ele que João Inácio recorreu no dia em que seu
touro melhor perdeu-se na caatinga. Quem, por aquelas bandas, seria capaz de achar o
animal?
— Não posso, não, seu João Inácio — desculpou-se Pantaleão, mordiscando o
pé-de-moleque que Terta fizera para a merenda.
— Mas, Seu Pantaleão, se o senhor não for, quem é que pode me ajudar?
João Inácio lamentava a negativa de Pantaleão. Dependia exclusivamente dele
para ter de volta seu touro preferido, que cobria as vacas de modo perfeito, garantindo
uma melhoria de raça que já lhe valera alguns prêmios na capital.
— Se não fosse esse reumatismo nas costas, eu pegava essa empreitada, mas do
jeito que eu estou, até a cama incomoda.
João Inácio sabia que nessas horas era inútil insistir. Teria que dar o touro por
perdido ou esperar o milagre dele voltar sozinho.
Foi o que se deu. Um menino gritava, do alto da mula, lá na porteira.
— O touro voltou, Seu João Inácio, o touro voltou!
Voltou o sorriso à cara do dono do bicho. Voltou a tranqüilidade ao alpendre de
Pantaleão. Seu João Inácio até aceitou o bolo de milho que Dona Terta lhe estendia no
prato pequeno de beirada quebrada.
— Esse touro ia-me fazer muita falta.
— Pra mim ele voltou só porque sentiu que o senhor vinha aqui — disse Dona
Terta, pegando o bastidor e tomando seu lugar na cadeira de sempre. — O touro não
sabia que Pantaleão não ia e, com medo, resolveu se entregar, pensando que ele fosse.
— O touro voltou, né?
— Voltou não, Pedro Bó. Ele veio só dar um recado, mas já vai pra caatinga de
novo. Pedro Bó, se eu te batizar, eu quero ter o rabo do cão nascendo em mim. Tu vai
morrer pagão!
A volta do touro era motivo para comemoração. E era ainda mais. Era tema para
uma estória das mais incríveis. Foi Dona Terta quem lembrou, porque Pantaleão não é
homem de dar importância às coisas que lhe sucedem.
— O derradeiro boi que Pantaleão pegou foi o boi Bozó. Foi o que deu mais
trabalho. Conte o causo pra Seu João Inácio.
— O homem lá quer saber disso? Ele quer é ir ver o boi dele, saber se chegou
bem, se tudo tá em ordem, não é, não, Seu João Inácio?
Podia ser, seria lógico que fosse, mas quem pode resistir à tentação de escutar
uma estória importante como a do boi Bozó? E era estória verdadeira, contada por quem
a viveu: Pantaleão Pereira Peixoto.
— Pois bom...
No sertão não havia quem já não tivesse escutado nesse boi Bozó. O bicho tinha
parte com o cão, havia quem afirmasse. Nenhum vaqueiro, nem mesmo os campeões
nas vaquejadas de Salgueiro, tinha conseguido arrancar do mato o boi valente, tinhoso
como o capeta, sabido como fiscal. Era um boi que pertencia a um coronelão cearense e,
além do medo do boi, havia o respeito ao animal que fazia parte da estima maior do
coronel.
— Meu boi Bozó é meu tesouro — o coronel sempre dizia.
O diabo é que vez por outra o boi se soltava e tomava o mato. Era o caos. Quem
tinha coragem e tutano de o trazer de volta? Fugindo dos cercos, cortando com os
dentes a corda do laço, derrubando vaqueiros e escoiceando os atrevidos que dele se
aproximavam, o boi Bozó só saía do mato quando bem lhe apetecia, como a dizer "saio
porque quero, não tou saindo a mando de safado nenhum".
Mas naquele dia havia um homem da cidade que tinha ido ao sertão especialmente
para conhecer o boi Bozó, tão comentado, tão famoso, o boi preferido do coronel seu
amigo.
— Dr. Faustino está aí, e eu quero o boi Bozó no curral, custe o que custar.
Durante oito horas os homens da fazenda cercaram o boi, prepararam-lhe
armadilhas, tentaram laçá-lo, encaminhá-lo para a fazenda, mas tudo restou inútil. Um
deles, então, lembrou de Pantaleão.
— Só ele pega esse boi.
— E vieram me buscar, Seu João.
— Pra pegar o boi?
— Não, Pedro Bó. Pra pegar um vapor e ir pra Alemanha. Mas será o tinhoso?
Faz meia hora que só se fala no boi e tu vem me perguntar uma pergunta besta dessas?
Hoje você dorme sem cear, pra aprender a não perguntar leseira.
— Conte, meu velho. Vieram lhe buscar pra pegar o boi Bozó.
— Pois bom.
Pantaleão montou no alazão de patas brancas e pescoço empinado, alazão arisco,
que sabia de cor os caminhos do mato. Ganhou o mundo. Andou um dia e uma noite.
Na manhã do outro dia, atrás de uma jurema, estava o bicho. Malhado de branco, baba
no canto da boca, olhar acendido pelo ódio que lhe dava a busca que sofria. Os olhares
se encontraram. Pantaleão sabia que o boi Bozó não era igual aos bois idiotas que se
deixavam pegar com facilidade. Sabia das suas manhas, da sua violência e,
principalmente, não desconhecia o ódio que dava no bicho essa conversa de o cercarem.
O alazão mal respirava, para não chamar a atenção. Pantaleão fez o cavalo
circundar a jurema, querendo pegar o boi pelas costas. Inútil. Como um saci, com a
leveza de um coelho, o boi Bozó deu um pinote e sumiu de vista. Galopava como um
potro.
Depois de o encontrar não seria Pantaleão o homem que o perderia. Na poeira do
boi o alazão galopou. A distância não se encurtava, mas também não crescia. E
Pantaleão não perdia de vista o boi Bozó, pernas enlaçadas em Brioso, seu alazão de
confiança.
O boi subiu o Morro da Estrela com o alazão Brioso em galope farto atrás dele. E
corta campina, corta catinga, dobra desvio, pega caminho, atravessa rio, pula cerca,
passa ponte, passa estrada. O boi Bozó não parava, mas a distância que o separava do
alazão Brioso já era a metade. Ninguém jamais poderá calcular a velocidade em que
iam. O boi Bozó na frente. . .
__ . . .e eu atrás, Seu João Inácio.
— A cavalo?
— Não, Pedro Bó. A cavalo, não. Eu ia montado em teu pai, que, pra mim, não
tem montaria melhor do que teu pai. Terta, arme minha rede que eu vou me deitar. Não
conto mais nada.
Ameaçou levantar-se, a mulher o conteve.
— Conte, meu velho. Pedro Bó perguntou sem querer.
— Conte — pediu João Inácio, muito interessado.
— Pois bom!
A distância entre o boi Bozó e o alazão Brioso já não chegava a vinte metros. Foi
quando Pantaleão deu fé que estavam na cidade do Rio de Janeiro. O povo corria para
as casas e se escondia nas esquinas. Ninguém entendia aquela coisa inacreditável: um
boi malhado voando pelas ruas, seguido por um alazão com um cavaleiro em cima, em
velocidade ainda maior.
— De mim você não escapa, seu boi cachorro!
Pantaleão tinha a honra posta em jogo. Os vaqueiros, no sertão, certamente
estariam apostando se ele traria ou não o boi Bozó, arreliado, bicho mateiro.
Numa esquina o sinal fechou. Boi Bozó era danado, mas era obediente —
palavras de Pantaleão. Parou no sinal e, cansado como estava, deixou que corda lhe
fosse passada pelo pescoço.
— Pronto. Embarque no Lóide — orientou Pantaleão a um cidadão que se
prontificara a ajudá-lo. — Vai voltar de navio, que de pés ele não agüenta a viagem de
volta.
O boi Bozó foi levado para ser devolvido ao dono. Pantaleão abraçou-se ao
cavalo. O alazão Brioso, mais brioso do que o nome, estava frio. Esquisitamente frio.
— Morreu naquela hora, Seu Pantaleão? — perguntou Seu João Inácio, já se
preparando para ir embora.
— Nada. Tinha morrido há mais de cinqüenta quilômetros. O resto ele veio no
embalo. Ah, Brioso, Brioso, que saudade eu tenho do meu cavalinho.
— Esse cavalo, Seu Pantaleão. . .
— Não conhece ele não? Já viu, na frente do Jóquei Clube lá no Rio? Não tem
um cavalo lá, em pé, todo ajeitado?
— Tem. . . tem — confirmou João Inácio, titubeando.
— Diga pra ele, Terta, que cavalo é aquele.