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segunda-feira, 21 de abril de 2025

RUMPELSTILZINHO CONTO DOS IRMÃOS GRIMM


Houve, uma vez, um moleiro que era muito pobre e tinha uma filha muito bonita. Certa vez, aconteceu-lhe falar com o rei e, para dar-se importância, disse-lhe:
- Eu tenho uma filha capaz de fiar e transformar em ouro a simples palha .
O rei, arregalando os olhos, pensou consigo mesmo: "Esse é um negócio excelente para mim!," pois ele era um poço de ambição o nada lhe chegava. Então, disse ao moleiro:
- Se tua filha é na realidade tão engenhosa como dizes, traze-a amanhã ao palácio; quero submetê-la a uma prova.
No dia seguinte, a moça foi apresentada ao rei, o qual a conduziu a uma sala cheia de palha até ao forro, tendo lá uma roca de fiar num canto.
- Senta-te aí ao pé dessa roca de fiar, - disse o rei; - já que sabes transformar a palha em ouro, põe-te a trabalhar e, se até amanhã cedo não me tiveres produzido todo esse ouro, serás condenada à morte.
Trancou a sala e foi-se embora sem mais uma palavra. A pobrezinha ficou só, na maior aflição deste mundo, pois nunca imaginara que se pudesse transformar palha em ouro e, sua aflição aumentando cada vez mais, pôs-se a chorar desconsoladamente. Nisso a porta rangeu e apareceu um gnomo muito lampeiro, dizendo:
- Boa noite, linda moleira; por quê estás chorando assim?
- Ai de mim, - soluçou ela; - o rei mandou-me transformar toda esta palha em ouro e eu não sei fazê-lo.
- Hum! - disse o gnomo sorrindo brejeiro; - que me dás se eu fiar tudo como o rei deseja?
- Oh, meu amiguinho, - respondeu ela; - dou-te o meu colar.
O gnomo tomou o colar, examinou-o detidamente, guardou-o no bolso e, em seguida, sentou-se à roca: frr, frr, frr, fazia a roda, que girou três vezes, enchendo o fuso de fios de ouro. Fez girar mais três vezes: frr, frr, frr, e este outro fuso também logo ficou cheio; e assim trabalhou até que, pela madrugada, tinha desaparecido a palha, só ficando os fusos cheios de fios de ouro.
Quando, ao nascer do sol, o rei foi à sala ver se suas ordens haviam sido cumpridas, ficou extasiado ao ver todo aquele ouro. Mas não se contentou, de coração ávido e ambicioso, desejou possuir ainda mais. Levou a moça para outra sala, ainda maior, que estava cheia de palha até ao teto e tornou a ordenar-lhe que fiasse aquilo tudo durante a noite, se tinha amor à vida.
A pobre moça não sabia para que santo apelar e desatou outra vez num choro amargurado; mas eis que novamente a porta rangeu e o gnomo tornou a aparecer, perguntando:
- Mais palha para fiar? Que me dás agora se eu fizer o mesmo trabalho de ontem?
- Dou-te este anel que trago no dedo, - disse ela, apresentando-lhe o anel.
O gnomo tomou o anel, examinou bem e depois recomeçou o zumbido da roda; ao raiar do dia, toda aquela palha estava transformada em fios de ouro puro e brilhante.
O rei, muito cedo, foi ver o trabalho e exultou de alegria vendo aquela pilha de ouro. Sua ambição, porém, era desmedida; levou a moça para uma terceira sala, maior que as outras, tão cheia de palha que só ficara um cantinho para a roca de fiar.
- Aí tens a palha que deves fiar durante esta noite; se o conseguires, casar-me-ei contigo. - "Embora seja filha de um simples moleiro, - pensava consigo mesmo o rei, - uma esposa mais rica não encontrarei no mundo todo!"
Assim que ficou só, a moça esperou que aparecesse o gnomo; este não tardou.
- Hum! Temos mais serviço hoje? O que me dás se eu te fiar toda esta palha?
- Nada mais possuo, - disse ela tristemente; - já te dei tudo quanto tinha comigo.
- Nesse caso, promete-me que me darás teu primeiro filho quando fores rainha.
A moça pensou: "Quem sabe lá se me tornarei rainha algum dia!" E, para sair-se daquele apuro, prometeu ao gnomo tudo o que ele quis. No mesmo instante, o gnomo se pôs a fiar e, em pouco tempo, transformou toda a palha em ouro.
Quando pela manhã bem cedo o rei chegou e viu tudo executado conforme seu desejo, ficou radiante de alegria e, cumprindo o que prometera, casou-se com a filha do moleiro, que assim se tornou rainha.
Decorrido um ano, a rainha teve um filho lindo como os amores; estava tão feliz que já não se lembrava da promessa feita ao gnomo; mas este não se esquecera, entrou no quarto da rainha e disse-lhe:
- Por três vezes ajudei-te! Agora dá-me o que me prometeste.
A rainha ficou apavorada e ofereceu-lhe todas as riquezas do reino para que lhe deixasse aquele amor de criança; mas o gnomo, implacável disse:,
- Não, não. Prefiro uma criaturinha viva a todos os tesouros do mundo.
Então a rainha desatou a chorar e a lastimar-se de causar dó. O gnomo, condoído de sua grande dor, disse-lhe:
- Está bem! Concedo-te três dias de prazo; se antes de vencer este prazo conseguires adivinhar meu nome, poderás ficar com a criança.
A rainha encheu-se de esperança; passou a noite inteira pensando em todos os nomes que conhecia ou que ouvira mencionar; além disso, expediu vários mensageiros que percorressem o reino todo e perguntassem os nomes de quantos existiam.
No dia seguinte, o gnomo apareceu e ela foi dizendo os nomes que sabia, a começar por Gaspar, Melchior, Baltazar, Benjamim, Jeremias e todos os que lhe ocorria no momento, mas a cada um, o gnomo exclamava:
- Não. Não é esse o meu nome.
No segundo dia, a rainha mandou perguntar o nome de todos os cidadãos das circunvizinhanças e repetiu ao gnomo os nomes mais incomuns e extravagantes.
- Chamas-te, acaso, Leite-de-Galinha, Costela-de- Carneiro, Unha-de-boi ou Osso-de-baleia?
Mas a resposta do gnomo não variava:
- Não. Não é esse o meu nome.
No terceiro dia, chegou o mensageiro e disse-lhe:
Percorri todo o reino e não descobri nenhum nome novo. Mas, passando ao pé de uma montanha, justamente na curva onde a raposa e a lebre se dizem boa-noite, avistei uma casinha muito pequenina; diante da casinha havia uma fogueira em volta da qual estava um gnomo muito grotesco a dançar e pular com uma perna só. Estava cantando:
- Hoje faço o pão, amanhã a cerveja;
a melhor é minha.
Depois de amanhã ganho o filho da rainha.
Que bom que ninguém sabe direitinho
que meu nome é Rumpelstilzinho!
Podeis bem imaginar a alegria da rainha ao ouvir essa história; decorou-a e quando, pouco depois, a porta rangeu e apareceu o gnomo a perguntar:
- Então, minha Rainha, já descobriste o meu nome?
A rainha para disfarçar, começou por dizer:
- Chamas-te Conrado?
- Não.
- Chamas-te Henrique?
- Não.
- Não te chamas, por acaso, Rumpelstilzinho?
Ao ouvir seu nome, o gnomo ficou assombrado; depois teve um acesso de cólera e berrou:
- Foi o diabo quem te contou; foi o diabo quem te contou!
E bateu o pé no chão com tanta força que rompeu o assoalho e afundou até à cintura. Ele, então, desesperado, agarrou o pé esquerdo com as duas mãos e puxou tanto que acabou rasgando-se ao meio.
Desde esse dia, a rainha viveu tranquilamente com o seu filhinho.

sexta-feira, 18 de abril de 2025

VICÍO DE MATAR-CONTO POLICIAL DE RICHARD KADROV




Aproximo-me da mulher, mas o acompanhante me vê e faz menção de pegar alguma coisa sob o casaco. Reflexos não humanos; mas costumo devorar não humanos no almoço. As batidas do coração da mulher sussurram, me fazem confidências. A boca do homem se movimenta, expressando dor em alguma linguagem animal. O estalar dos ossos lembra uma placa de gelo que se quebra, um som distante e solitário. Deixo-o contorcendo-se, com a Magnum ainda na mão. Então, eu e a mulher somos um, dançando num tapete de cacos de vidro no beco atrás do clube, enlaçados em uma valsa em câmera lenta, meus dentes em sua garganta, seu sangue em meu estômago. Jóias, penso. Mel. Suor. Amor. Meu coração bate mais devagar quando a coisa na minha cabeça percebe que a vida dela está se extinguindo. No momento em que isso ocorre, emite um som baixo e resignado, como se há muito tempo esperasse por mim ou por alguém como eu. Encara a morte como uma libertação e está certa. Sua morte trouxe alívio para minha sede e a coisa dentro de minha cabeça ronrona como um gato gordo e satisfeito. Abandono o corpo em um depósito já atulhado de lixo. Depois, ardendo com a vida dela, pulo um muro e começo a escalada; deslizo e rodopio pelos telhados, saltitando e batendo os calcanhares. Talvez você já me tenha visto entre as antenas de televisão, o Baryshnikov do matadouro.
Tenho visto você freqüentemente no ônibus, no bonde, ou andando de jinriquixá às quatro da manhã. Geralmente, você não me vê. Sou igual a qualquer um. Suo sangue e mercúrio e me disfarço com roupas extravagantes, típicas desses esquizofrênicos que vivem pichando as paredes do metrô. Cada mensagem rabiscada é uma súplica e uma advertência. Está escutando? Eu estou. Às vezes, percebe minha presença, trocamos olhares de reconhecimento; comunicamo-nos naquela estranha linguagem muda das primeiras horas da manhã, no pesado silêncio de um cenário de tampas de bueiro fumarentas e portarias desertas de gigantescos edifícios de escritórios. Ambos detestamos as palavras, é óbvio. Ainda assim, não posso deixar de me perguntar quem você teria traído ou o que teria feito para me mandarem no seu encalço.

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À noite, sinto seu calor. Conheço sua pulsação, porque 81 é a minha também. Deram-me uma pulsação igual á sua e me disseram para encontrá-la, caçá-la pelo ritmo e essência de sua vida. Se não lograr matá-la, parar seu coração, morrerei em seu lugar. Meu corpo não resistirá. Não posso viver muito tempo com a pulsação alheia.
Nem ao menos me disseram seu nome.
Há uma coisa na minha cabeça. Brilhante como um cromado, lisa como o jade polido, no formato de uma bala. Ouço seu zumbido dentro de meu cérebro, como um casulo ansioso por libertar o conteúdo. Altera-me. Dilui meu sangue, embaralha meus pensamentos, endurece meus olhos transformando-os em negras adagas gélidas e brilhantes. Quando decidem me ligar, sou capaz de ver até a medula dos seus ossos, farejar a vida em você. Variegate Erythropoietic Porphyria. Sim, o vampiro mecânico, sou eu mesmo. Os Homens de Terno me dão o tratamento Lugosi quando bem entendem, me ordenam que mate e depois me desligam através da bala na minha cabeça.
─ Hemofluxo ─ sentenciam em sotaques de Harvard, Bangkok
e Texas.
Acredite em mim quanto a este aspecto: quando me ligam, é melhor do que qualquer droga. Melhor que bolinhas, sexo ou música. Por isso sou inteiramente dominado por eles. Os Homens de Terno se tornaram minha mãe coletiva. Sou amamentado pela coisa em minha cabeça.
Criaram treze de nós ao todo. Sete mulheres e seis homens.
Um número primo; o número de uma sociedade macabra. Grande sujeitos, aqueles rapazes do governo. Trouxeram-nos de volta para os Estados Unidos e colocaram-nos balas vampirizantes
na cabeça. Deram-nos olhos que se turvam quando apertam um botão. Suponho que é por isso que estou aqui voando nesta lata de luxo, a uma velocidade mach três, sobre o Atlântico Sul, contando esta história a vocês.
Há alguns anos atrás, eu vivia na água. Mais precisamente,
em abóbadas de gelo antártico, brancas e límpidas, quilômetro
e meio abaixo da chuva ácida, dos vazamentos de radiação
e dos peixes cancerosos. O fim do mundo, tão fundo que as paredes ainda continham H2O fresca, fossilizada em forma degelo. Éramos trabalhadores voluntários, treze presidiários entre centenas, egressos de San Quentin. Estavam pagando preços de ópio por aquela água, preservada dos resíduos industriais e da agonizante camada de ozônio por um milhão de anos. Entretanto, profissionais da hidromineração teriam abocanhado uma parcela muito grande da margem de lucro do cartel que financiava a escavação. Foi por isso que nos recrutaram. Um negócio supimpa para todos os envolvidos. Obtinham a água a preços mais baixos, e nós, uma semana deduzida de nossas penas por dia de trabalho.
Estamparam nossos números de presidiários nas costas dos uniformes termo isolantes. As fibras de micro vidro recendiam
a mofo, urina e suor velho. Selados dentro daqueles trajes volumosos, não tínhamos sexo; por trás das máscaras respiratórias,
pobres diabos sem rosto, mourejávamos escavando a alva massa glacial, buscando uma saída. Eu operava uma máquina que cortava grandes blocos de gelo das vertentes escavadas no maciço subterrâneo em que se haviam transformado antigos mares e em seguida os içava e depositava em esteiras rolantes que os conduziam às salas de processamento. Lembro-me dos perfis suspensos de flores e peixes pré-históricos, do brilho vermelho dos mostradores digitais refletido nos canos polidos dos tanques de oxigênio, dos painéis com legendas em russo que não conseguia ler. Sentia-me em casa, livre e seguro; á noite, sonhava em tons de branco silente.
Tomávamos uma chuveirada uma vez por semana. Não havia luzes no recinto. Os guardas usavam óculos de visão noturna e portavam aguilhões e cassetetes. Homens e mulheres tomavam banho juntos, amontoando-se em duas longas filas sob as bocas que despejavam água. Placas de acrílico barato apareciam no revestimento texturizado enegrecidas e abauladas, com o aspecto de pústulas numa pele inflamada. Sempre conseguia localizá-la sob a nervosa luz fluorescente das portas de saída, movendo-se na direção oposta, por trás da mulher tatuada e bem à frente do homem baixo e musculoso. À noite, dormíamos em beliches, dispostos em longas filas e separados por cortinados. Andei trocando de cama com outros presidiários tentando descobrir onde ela dormia. Peguei os beliches mais altos, os poleiros 83 mais encardidos e infectos, onde o colchão praticamente havia se desintegrado, antes de conseguir localizá-la. Quando o homem do beliche vizinho recusou-se a trocar de lugar, esmaguei-o com o guindaste no turno de trabalho seguinte. O capataz registrou o caso como acidente de trabalho e requisitou outro operário para substituí-lo.
Até me mudar para a cama próxima a dela, não tinha me ocorrido que a mulher e o homem musculoso eram amantes. Ficava deitado ali á noite, ouvindo-os, a respiração rápida e ofegante, o roçar da pele dela na dele. Apresentei-me e fiquei sabendo seus nomes: Cale e Diega. O sorriso de Diega era só caninos. Era dessas mulheres que podiam extrair seu sangue só de olhar para você. Poderia exauri-lo e sugar até a medula dos seus ossos e ainda assim você agradeceria o tempo todo. Cale estava obcecado por ela, isso era evidente. Mais tarde, quando pensava a respeito percebi que era um candidato perfeito para o Hemofluxo.
Mesmo lá no gelo, os olhos dele tinham uma aparência dura e embaçada, semelhante à de bijuterias baratas fáceis de encontrar num camelô de rua em Hong Kong. Era o animal de estimação de Diega. Sente-se e dê a patinha , querido. O que não significava que não o amasse. Diega gostava de mim também. À noite, quando Cale estava fora se entretendo com os jogos de vídeo, ia para a cama dela. Gostava que a massageasse, começando pelos músculos rijos do peito dos pés e dos tornozelos, progredindo objetivamente para cima, passando pelas pernas e coxas até os cabelos louros do baixo ventre. Ela me afagava a cabeça e dizia o quanto gostava dos meus cabelos. Beijava-lhe as palmas das mãos, lia sua sorte, inventando histórias para ela. Às vezes Cale voltava e ficava observando, enquanto eu a acariciava. Ficava lá sentado no pé da cama, como uma gárgula de olhos negros, com os joelhos dobrados e encostados no peito, enquanto deslizava meus dedos pelas pernas de Diega, ou por suas costas e nádegas. Depois eu voltava para minha cama e Cale assumia. Ao contrário dele, eu não gostava de ficar assistindo.
Uma noite, estava segurando com força um dos tirantes do meu beliche, concentrado nos sons que ela emitia ─ vogais tagálicas labiais arredondadas, estranhamente musicais ─ quando a mão de Diega atravessou a cortina que separava nossos catres e envolveu a minha. Segurou-a firmemente o tempo todo. As veias no seu pulso denunciavam o ritmo do coração animal. Sem querer, tive uma súbita visão de Diega como uma criança, agarrando a mão do papai e da mamãe no Zoológico de Manila. Envolvida pelo cheiro desagradável de chocolate rançoso e suor dos animais, com pavor de ser arrastada e se perder no meio das pernas da multidão de estranhos. Depois, senti uma pressão repentina
enquanto deixou escapar as últimas interjeições entrecortadas
do outro lado da cortina. Fiquei imaginando se estava sendo preparado para ser o novo animal de estimação.
No nosso décimo mês de cativeiro enregelado, os Homens de Terno vieram nos buscar.
Na cidade, era fácil ficar invisível. Dormia durante o dia. À noite, saía para caçar, sempre com o cuidado de voltar para casa ao amanhecer. O apartamento estava equipado com janelas especiais, dotadas de vidraças com duas lâminas de vidro polarizado.
Às vezes, observava os letreiros dos clubes pela manhã, na hora de fechar. Ficava impressionado de ver como eram vazios e inertes, como os olhos de um peixe morto. Mas quando o manto da noite descia sobre os telhados, centenas de olhos voltavam à vida, piscando para mim como as garotas de saltos altos e roupas colantes que ficavam na esquina segredando o preço do amor no ouvido dos turistas. Todas muito pálidas, como estava na moda, as orelhas cintilando com o brilho de extravagantes brincos de cristal colorido. Misturava-me ao grupo e vagava entre elas, deixando os rostos estuantes se sucederem à minha volta, quase me tocando, enquanto permanecia atento às batidas dos corações.
Não é fácil passar despercebido neste maldito jato. Os jovens
executivos de olhos vivos do outro lado do corredor insistem
em lançar olhares de esguelha para meu cantinho escuro na cabina de primeira classe, pensando que sou algum tipo de mafioso de férias. Já matei muitos como eles, esfacelando suas estúpidas caras rosadas com minhas próprias mãos. No momento que possuo suas pulsações, passo a possuí-los. Os Homens de Terno tinham rostos como esses. Rostos padronizados como cartões postais, difíceis de distinguir, impossíveis de gravar na 85memória. Compraram-nos do cartel com dinheiro vivo. Fomos, os treze, selecionados entre centenas, de acordo com um modelo
computadorizado, levando em conta os tipos de personalidade,
nossos crimes e atributos físicos e intelectuais. Fomos com eles porque determinaram que assim o fizéssemos. Não sabíamos
quem eram, e não forneceram nenhuma informação sobre si mesmos. Ainda não sei quem pagou meu aluguel. A CIA? O KGB? A companhia telefônica? Mais de uma vez, no noticiário da Rede Mundial, apareceu o rosto de alguém que eu havia eliminado
por ordem deles. Um bioquímico coreano. Um pintor neo expressionista. Uma atriz pornô de Formosa. Que teriam essas pessoas em comum? Que poderiam ter em comum com você?
Uma coisa sou obrigado a reconhecer: a primeira vez que me senti realmente vivo foi quando me ligaram pela primeira vez. Acordei na mesa de cirurgia, recondicionado, com uma voz na cabeça que falava comigo através da bala em meu cérebro. A voz me mandou caçar e me ensinou como fazê-lo.
Era um prostituto ativo na área do Times Square, com uma tatuagem espalhafatosa que, dependendo do ângulo, parecia
ora um desenho com um motivo Maori, ora uma gueixa, ora um escudo ou logotipo de uma associação qualquer. Encontrei-o em um fim de semana, no meio de uma multidão de centenas. Levei-o a um desses grandes cinemas holográficos. Fitava-me o tempo todo de um modo engraçado, com um brilho de neon no olhar. A princípio, eu estava nervoso, com medo de ter escolhido o homem errado. Entretanto, podia ouvir nitidamente as batidas do seu coração, farejar a medula dos seus ossos. Pensando que eu hesitava por timidez, colocou as mãos nas minhas pernas. Quando me inclinei na direção do seu rosto, fechou os olhos, expondo a garganta. Foi quando o peguei. Naquele momento, inebriado pela explosão de vida, pensei: O mar é salgado, e já minerei os mares. O sangue é salgado. O sangue é mar e está vivo dentro de mim. Suguei até a última gota e senti como uma martelada
bem entre os olhos, que me deixou fora de mim, engolfando-me num fervilhante turbilhão líquido. Nessa hora, a única coisa que meus olhos focalizavam era um cristal barato pendurado na orelha do garoto, que emitia imagens pornográficas, como microondas
refletindo-se em latas de conserva vazias no fundo o mar.
Os Homens de Terno não deixavam nada ao acaso. Quando
precisavam de nós, ligavam as coisas em nossas cabeças e atendíamos o chamado prontamente, ansiosos e elétricos, soltando faíscas. Subíamos até o último andar em elevadores com painéis de madeira, música funcional e corrimãos de metal dourado brilhante, com marcas foscas deixadas no polimento por nossas mãos nervosas.
Eu e Cale éramos os mais requisitados; quanto a mim, tudo bem. Tínhamos um salário, mas os assassinatos eram pagos a parte. Os Homens de Terno eram loucos por informática. Soterravam-nos com disquetes, resmas de bisonhas e intermináveis listagens e fotos digitalizadas de qualquer um cuja pulsação nos tivesse sido destinada. Havia também a ficha médica, extratos bancários, situação de crédito na praça, impressão da voz, impressão genética, registro de fundo do olho, carteira de identidade federal, estadual e de trabalho, lista de clubes freqüentados,
lista de amantes. Os Homens de Terno gostavam tanto desse tipo de informação porque assim podiam dar um cunho de respeitabilidade e cumprimento do dever ao trabalho que executávamos, fazendo de conta que éramos todos policiais perseguindo um ideal elevado e não assassinos profissionais. De volta à casa, costumava me desfazer de todo esse lixo na retalhadora,
conservando no bolso apenas as fotografias.
No retrato que me deram, você está sorridente, usando um saiote de tênis. Ao fundo, aparecem palmeiras, recortadas sobre o límpido céu azul mexicano, mas o reflexo do sol tropical na sua pele e o branco da sua roupa lhe emprestam uma aparência de suave frescor, como se estivesse protegida por um banco de neve impenetrável.
Não me interprete mal ─ o desejo sexual não é importante neste contexto. Um adulto normal tem em média quatro ou cinco litros de sangue no corpo. Você é ótima, mas meu tanque está quase vazio. Percebeu?
Cale estava no Cairo, cuidando de um empresário alemão envolvido em negócios internacionais. Diega e eu estávamos dando uma olhada nas lojas da Aldeia. Um lugar graciosamente87
antiquado, interessantíssimo. Ela comprou um canivete automático
de cabo preto fosco, e divertia-se admirando o próprio reflexo nos vidros das vitrines das lojas, mantendo a lâmina no nível dos olhos, fazendo cara de má como um bandido de cinema,
abrindo-o e fechando-o com um estudado ar e displicência. Compramos cerveja na delicatessen da esquina e Diega me contou
como uma noite havia cortado a garganta da mãe com uma lâmina como aquela.
Disse que tinha nascido em uma das fazendas de bebês de Mindanau, de uma mulher artificialmente inseminada com esperma de origem local. Diega bebê foi destinada ao mercado
americano de famílias pré-fabricadas. Arredondaram-lhe os olhos e suprimiram a melanina com nano processadores injetados
diretamente na placenta. Os pequenos instrumentos moleculares
tinham afetado seus olhos, deixando a pupila esquerda permanentemente dilatada. O pais americanos devolveram-na. A criança não satisfazia as expectativas; poderiam trocá-la por alguma outra coisa?
─ Fui enviada mais três vezes ─ explicou ─ mas as mamães
e papais sempre me mandavam de volta.
Quando já estava mais velha, a fazenda vendeu-a para um clube situado fora da Base Naval Americana, na baía de Subic, onde havia uma porção de papais que a queriam.
─ Aprendi a dançar, a enrolar um baseado e a trabalhá-los vigorosamente com as mãos, para que mais tarde a coisa fosse bem rápida.
Uma noite, estripou um dos fregueses e, usando todo o crédito do seu cartão reservou um vôo para os Estados Unidos. Antes de embarcar, entretanto, deu uma passada pela lebensborn
para abrir uma segunda boca em sua mãe natural. Quando pousou em Honolulu, a polícia estava à sua espera.
─ Era apenas uma criança! ─ afirmou, em tom queixoso.
Não pude percebe claramente se estava sentida por ter matado a mãe ou por ter sido presa por isso.
Comprei-lhe uma soqueira de uma prostituta dominadora da Rua Houston. Era grande demais para sua mão, mas deu um jeito de encaixar três dedos nos buracos certos, deixando o mindinho
solto entre os anéis e o arco apertado contra a palma da mão. Depois, encostou o soco inglês no meu rosto, pressionando o lado do meu queixo.
─ Você realmente matou sua mãe? ─ perguntei.
─ Não, meu pai ─ respondeu, sorrindo ─ Molestou minha irmã e eu, então estourei-o com o rifle de caça.
─ Fale sério!
─ Na verdade, mamãe e papai têm uma barraquinha de tacos em Dallas. Fui presa por vender PCP temperado com arsênico
para o filho de um policial.
Na vitrina de televisões de uma loja, a imagem dela com a soqueira empurrando meu queixo aparecia nas várias telas, de uma dúzia de ângulos diferentes, ligeiramente fora de esquadro. Fiquei imaginando que tipo de história teria inventado para fisgar
Cale.
─ É só comigo ─ perguntei ─ ou você sai por aí gozando a cara de todo mundo?
Diega sorriu e tirou a soqueira. Beijou-me onde antes estivera
pressionando.
─ É só com você, querido ─ retorquiu ─ Se fizesse com todos, não seria tão especial.
Roubou o último cigarro do meu casaco e fumou-o enquanto
caminhávamos de volta para casa.
Pensando agora no assunto, isso se parece com o tipo de brincadeira selvagem e estúpida que às vezes as crianças fazem sem saberem bem por quê. Quando tinha seis anos, morava em Queens. Costumávamos andar de bicicleta durante a noite nos estacionamentos escuros, tentando derrubar uns aos outros, desviando-nos como morcegos fantasmas dos blocos de cimento que demarcavam as vagas. Dizíamos uns para os outros que os estacionamentos eram antigos cemitérios cobertos de asfalto e que a finalidade das linhas amarelas era a de ajudar as pessoas a localizarem os antigos túmulos.
Diega, meu Deus, quero vê-la agora. Quero-a de volta naquele
cenário branco onde a conheci. Quero rachar meu crânio e tudo libertar, deixar fluir toda aquela brancura com a qual costumava sonhar no tempo das minas. Era com Diega que eu sonhava. Não com o branco, propriamente, mas com sua pre89
sença lá, dominando tudo, puxando as cordinhas e fazendo tudo funcionar. Branco dos nós dos meus dedos em todas as vezes que sonhei espancá-la, branco dos peixes fossilizados, branco do gelo, branco psicodélico, o branco dos dentes e das máscaras cirúrgicas, branco de luas novas e fosfenos, branco fluorescente, branco de uma chuva de fagulhas ─ cada minúscula nova mais quente que o inferno mas pequena demais para fazer alguma diferença, branco de pus, branco de larva, o branco da rendição,
o branco do olho aparecendo por entre pálpebras semicerradas
quando ela mordia o lábio inferior, tremia e deixava escapar aquelas vogais percussivas.
Nós três éramos como as crianças nos pátios de estacionamento:
coriscos de aço rasgando a escuridão, num vôo cego, por um terreno acidentado. Diega nos usou, a mim e a Cale, com nosso assentimento. Nós a usávamos, também, formando uma espécie de corrente perfeita. A única coisa perfeita da minha vida. Às vezes me perguntava se os Homens de Terno sabiam de alguma coisa do que se passava entre nós. Pareciam totalmente alheios ao que fazíamos uns com os outros no intervalo entre dois trabalhos, executando aqueles assassinatos rituais dos nossos
desejos. Às vezes, entretanto, suspeitava que essa impressão
era errônea, que os Homens de Terno sabiam exatamente o que estávamos fazendo; que haviam planejado para que tudo ocorresse daquela forma, decompondo o padrão de nosso vício coletivo em uma expressão binária de necessidade absoluta, jogando
todos os dados em um grande computador do governo, observando-nos em funcionamento, monitorando nossas ações, registrando-as sob a forma de diagramas, fluxogramas, uma curva
perfeita de obsessão.
Seria realmente possível que tivesse sido assim? Poderia um modelo computadorizado, responsável por nossa presença naquele tempo e naquele lugar, incorporar algoritmos tão complexos
e sutis que fornecessem um verdadeiro perfil de nossas almas? Suponho que fosse possível, mas com os Homens de Terno
todos mortos, era tarde demais para perguntar o que tinha dado errado.
Estava voltando de Sidney, após um trabalho que me tomara duas semanas. Estava vesgo de cansaço, a cabeça estourando,
literalmente arrasado depois de passar vários fusos horários
viajando naquele brinquedinho birmanês suborbital. Você sabe como é: dez gravidades; nenhum serviço de bordo. Estava
meio sonâmbulo quando cheguei ao aeroporto Kennedy, de modo que levei algum tempo para entender quando os Homens de Terno me disseram que ela se fora. Estávamos no carro da companhia. Fiquei olhando para fora, através dos vidros fumé e girei o seletor de rádio do carro, procurando sintonizar alguma coisa que me agradasse. Acabei me decidindo por um noticiário árabe em uma das estações da Rede Mundial e aumentei o volume
o suficiente para abafar a tagarelice irritante dos Homens. Finalmente calaram a boca e me deixaram no meu apartamento. Entrei, joguei minha mala num canto e fiquei sentado no escuro por um longo tempo, massageando uma dor excruciante na base do crânio. Ao amanhecer, acordei com aranhas passeando na superfície do meu cérebro e uma estranha nova batida animal pulsando no meu coração. Respirei fundo e comecei a chorar porque de repente compreendi o que os Homens de Terno tinham tentado me contar, e exatamente de quem era a nova pulsação que me haviam imposto.
Ultimamente, tenho preferido pensar que Diega vinha tentando
me alertar sobre o papel que, instintivamente adivinhara, me caberia desempenhar no nossa pequena tróica, acionando as rodas em algum canto obscuro do meu subconsciente com aquelas histórias sobre a lebensborn e o marinheiro que estripara.
Talvez, a seu modo, estivesse procurando tornar as coisas mais fáceis para mim, deixando-me saber que não consideraria aquilo como uma coisa pessoal, que compreendia que era assim que tinha que ser. Ela precisava fugir e eu tinha que segui-la. Foi quando me dei conta de que ela havia repetido tudo outra vez. Vivera uma representação do pesadelo naquela noite na cidade de Subic. Deitara com quem lhe havia sido designado, fizera com ele algumas daquelas brincadeiras confusas e sem sentido, para depois abandoná-lo com o pescoço quebrado e sem tostão, em alguma suíte mobiliada de quinhentos dólares por noite.
Diega Braga. A última vez que a vi, estava deitada ao lado do pobre Cale, todo quebrado, com a arma ainda na mão, em
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cima de um monte de lixo, ambos com as marcas de meus dentes.
Os Homens de Terno, que também matei, contaram-me o que sabiam antes de morrer. Diega e Cale nunca tiveram a mínima
chance. O cara que ela apagou era um mensageiro especial
envolvido em negócios com bancos suíços, deslocando importâncias
substanciais para homens que tinham uma relação profunda e espiritual com o dinheiro de outras pessoas. Quando Diega o matou, provocando a paralisação das ondas cerebrais do sujeito, um simples implante no córtex foi automaticamente ativado,
congelando imediatamente todos os seus bens. O cartão de crédito que Diega roubou dele não passava de um pedaço de plástico sem valor. Não poderia engraxar os sapatos com aquilo,
quanto mais comprar uma passagem de avião. Encontrei-os quando saíam de um clube na rua Bleecker onde estavam tentando
vender o cartão de crédito do suíço para alguns receptores locais. Dançamos juntos, então, nós três. No beco, em um tapete de garrafas de vinho quebradas e folhetos esvoaçantes, pintamos a cidade de vermelho.
A três mil metros de altitude e quase do outro lado do mundo, ainda posso sentir o seu calor. A aeromoça distribui travesseiros, serve café e oferece a opção de três estimulantes neurais recreativos. Desceremos na estação de Byrd dentro de uma hora.
“Uma aventura no verdadeiro âmago da terra” ─ era o que dizia o vídeo da agência de turismo ─ “Apreciem paisagens recobertas
de branco mais antigas que o próprio homem!”
Será fácil me livrar destes turistas imbecis depois que aterrissarmos.
Também não vai ser difícil afanar um carro de neve. Ainda me lembro do lugar lá na tundra onde os hidromineiros costumavam estacionar aqueles veículos. Com um deles poderei ir para bem longe nas montanhas, onde jamais me encontrarão e de onde não me sentirei tentado a sair para persegui-la. Esta é a diferença entre Diega e eu. Eu quis fugir. Não sei se a morte era realmente o que ela estava procurando, mas tenho certeza de que, no fim, pouco se importava.
Os Homens de Terno não tinham necessidade de me dar a pulsação dela, mas o fizeram. Diega e Cale não tinham necessidade de permanecer numa cidade que eu conhecia tão bem, mas permaneceram. Era bem típico dela ficar por ali brincando em cima do gelo mais fino que pudesse encontrar. Ou, quem sabe, não desconfiava de coisa alguma. Talvez fosse apenas outra alienada
como eu.
Não acredito quase em mais nada. Só sei dizer que a razão por que estou aqui, a razão por que matei os Homens de Terno não é por terem me acionado para liquidar meus próprios amigos.
Poderia ter poupado Diega e Cale da mesma maneira que vou poupá-la. (Ponha os ombros para trás, endireite o corpo e sorria. Ofereço-lhe sua pulsação de volta. Não a quero mais. Não posso suportar seu peso.) Para ser honesto comigo mesmo, sou forçado a reconhecer que a razão pela qual matei todos eles não foi nem porque Diega escolheu Cale, mas porque não escolheu a mim.Uma diferença sutil, porém importante.
Aqui, entretanto, estou em terreno familiar. Talvez esta confissão seja uma tentativa atabalhoada de tentar desligar estas
merdas de detectores de uma vez para sempre e ao mesmo tempo afugentar definitivamente os fantasmas da culpa. No momento,
vou guardar seus rostos no meu bolso junto com os de todos os outros dos quais me incumbi anteriormente e continuar fugindo. Os Homens de Terno também obedeciam ordens, você sabe; e os patrões não gostaram nada, nem um pouquinho, do que fiz com seus rapazes. Deixei uma verdadeira fortuna daquela água do âmago da Terra transbordando pelas beiradas do terraço,
litros e mais litros. Contemplei-a enquanto se tornava rósea em volta dos corpos, encharcando as camisas sociais bordadas com monogramas, os cabelos que boiavam e as pilhas de listagens
rasgadas. Lavei-me na água de um milhão de dólares e abandonei o silêncio quase religioso daquele açougue, fechando a porta ao sair.
Afundado em couro macio na primeira classe. Alguns assentos
à minha frente, uns bêbados, com pinta de executivos de nível médio, estão tentando passar uma cantada na aeromoça e estou morrendo de vontade de rasgar aquelas gargantas magras
e rosadas. A coisa na minha cabeça está rosnando para mim, avisando-me que estou faminto e de que seria fácil abrir
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você e beber-lhe o conteúdo. Tudo que teria que fazer seria dar meia volta e regressar, o que seria um truque interessante, considerando
que estamos a trinta mil metros de altitude. Quanto mais me afasto de você, mais desesperados os apelos da coisa em minha cabeça, zumbindo como uma vespa presa em uma campânula. Esta luz é um martírio. Minha pele é leite coagulado. Quando levanto minha mão, posso praticamente ver os ossos através dela. Você nunca saberá como está sendo difícil deixá-la. Se não fosse pelas drogas que a aeromoça sorridente me oferece a toda hora, jamais conseguiria.
Os estimulantes recreativos operam no sistema límbico, excitando receptores de glutamatos no hipocampo e na amígdala.
Memórias se apagam, dispersam-se como fumaça. Imagine mudar rapidamente de canal na Rede Mundial, cada imagem se superpondo à anterior. Crianças andando de bicicleta. Peixes fossilizados. Canivetes automáticos reluzentes. Lembro-me de que andei me sentindo mal antes da viagem para Sidney. Cheguei
a pensar que era uma gripe, mas agora percebo que estava sofrendo antecipadamente com a separação. Diega estava cortando
os laços que nos prendiam, deixando-me à deriva. Estava no banheiro lavando o rosto quando ela entrou e trancou a porta. Tocou-me e abriu me zíper perto da pia, envolvendo-me com as pernas. Transamos ali mesmo, no chão. Horas mais tarde, passando
pela alfândega, na Austrália, ainda podia sentir o odor da sua pele em minhas mãos. Atrás da sua cabeça, o branco dos azulejos parecia gelado e brilhante, emoldurando seus cabelos, como as paredes nas minas de gelo anos atrás; e quando pude ver o branco por entre as pálpebras semicerradas, tive a impressão fantástica de que dentro da sua cabeça havia um globo de puro cristal. Ainda sonho com aquela visão, pensando que se tivesse alguma maneira de penetrar no seu crânio, poderia varrer para sempre a motivação que determinou sua fuga, impedindo que ocorresse.
Da janela posso ver os campos gelados do Planalto Gelado Sul. Ainda sinto sua presença no subsolo, mantendo-os unidos sob o gelo, naqueles catres gastos de madeira. Deslizo minhas mãos pelas suas costas, cavando na tempestade de neve e bancos de gelo das suas carnes, abraçando-a naquele momento, escutando seu balbuciar no clímax com um outro homem. Imediatamente
antes de me deixar ela me deita no chão, abre o vestido e desce sobre mim, como a sombra de um corvo, puxando-me para ela. Sinto o frio dos ladrilhos nas minhas costas quando tira minha camisa pela cabeça. Estou bêbado e cego pela neve, captando a imagem do seu rosto em chibatadas coloridas que queimam como o interior do meu crânio. A coisa no meu cérebro está me cozinhando e estou com medo. Quando toco o solo, meus pés abrem buracos no gelo. Vão me seguir e terei que dançar com eles do mesmo modo que dancei com a pobre Diega. Entretanto, antes disso, antes que mergulhemos para sempre, juntos, nessa imensidão branca, direi a eles de uma vez por todas para que compreendam: voltei para casa.

Extraído de Isaak Asimov magazine

OSSOS DO OFICIO-EXTRAIDO DE SELEÇÕES-CASOS HUMORISTICOS



Depois de uma semana que eu
 madruguei para fazer uma viagem, voltei muito cansado. No dia seguinte, no trabalho conchilei várias vezes na frente do computador.Não conseguia ficar acordado. Após uma dessas ¨cochiladas¨, vi no monitor que os espaços estavam todos preenchidos. Meus dedos haviam apertado uma tecla durante o rápido cochilo: zzzzzzzz.Após meses no mar, meus irmão e seus colegas, ganharam um curto periodo de folga em terra. Ele estava tão animado com a pespectiva de pôr os pés em terra firme que corria e pulava pelo convés. Infelizmente não viu um anteparo baixo e caiu dentro dele, desmaiado. Recobrou a consciência na enfermaria do navio vários dias depois, com a embarcação de volta ao mar e o porto e a folga em terra bem distantes.

A direção do colégio em que leciono, sempre se preocupou com a segurânça dos estudantes, e todos os anos convida bombeiros para falar sobre incêndios.Há também demonstrações para treinar o que os alunos devem fazer quando ouvem o alarme. Após o último treinamento, uma aluna do jardim-de-infância, que já háviam passando por duas demonstrações, estava ficando impaciente, perguntou:
-Professôra, quando vamos ter um incêndio de verdade? Eu já sei fazer tudo.

Recentemente alternamos a forma de prestação de serviço.Agora solicitamos aos fornecedores uma carta registrada em cartório, autorizando o depósito em conta corrente de terceiros.O fornecedor redigiu a carta, tirou uma cópia e me enviou.Ao receber, informei que a cópia não me servia. A pessoa que teóricamente resolveria meu problema disse:
-Então vou enviar o originial via fax.

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhniBL51_zlL4VFGCFcjOKblDitNeGRUT9PchuB4EScGJIgQig76cqGdKeyYmG9hYa6eTJHn7g7KWeX9toKYKOhptAART0MyFFjuY1dtwRaGiRgRtI3brFVhqkchCVnLC8-HWGCqxjJ-g/s1600/igreja.gif

Quando eu era pastor de uma igreja de São Paulo, realizei várias cerimônias de casamento.Em uma delas, o noivo estava muito nervoso,sério e comprenetrado.No fim da cerimônia, convidei os noivos a darem o beijo mais especial de suas vidas. O noivo abaixou a cabeça, pensativo. Achando que ele não tinha entendido , repeti o convite. Ele, então, deu a volta no genuflexório. Perguntei:
-O que foi algum problema?
Então para a minha surprêsa e de todos os convidados, ele me deu um beijo no rosto.

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/f/f6/Harpist_playing.jpg/250px-Harpist_playing.jpg

Minha amiga Agnes é uma eximia harpista e costuma tocar em festas e eventos, além disso é loura e tem um rosto angelical, Estava a caminho de um compromisso em um hótel, quando entrou no elevador com a sua grande harpa dourada.Antes, de as portas se fecharem, um homem entrou.Enquanto, o elevador subia, ele olhou preocupado, primeiro para ela , depois para a harpa e perguntou:
-Até que ponto você vai subir?

Uma colega e eu, estavamos almoçando com uma senhora que não tem muita familiaridade com computadores, e que só recentemente, deixou de usar serviços de currier e fax para utililizar o e-mail. Discutiamos um trabalho que ela deveria fazer para nós, quando ela me pediu, o meu enderêço eletrônico. Eu tenho uma conta no Gmail, mas, quando soletrei isso, ela se mostrou muito confusa.
-Esse G-mail não serve-disse ela- eu só consigo mandar e-mail.


Álguem do nosso bairro, colocou um imenso sofá, ainda em bom estado, no meio-fio, para ser levado pelos lixeiros.Muitos motoristas dirigiam lentamente ao passar por ele, para dar uma olhadinha.Quando viam o seu tamanho, no entanto, iam em frente.Por fim, um carrinho compacto, parou e dois homens soltaram.Essa eu quero ver, pensei, eles remolveram as almofadas, viraram o sofá de cabeça para baixo e o chocoalharam bem, então cataram todas as moedas que caiam de dentro dele e foram embora.

Minha mãe é fanática por limpeza, em um sábado pediu que eu e meu irmão arrumássemos a sala de jogos. Tinhamos dado uma festa ali na véspera e ela estava meio aborrecida com a bagunça.Enquanto nos vigiava, ficou evidente que não estava gostando nada do nosso trabalho de limpeza, e foi o que disse. Por fim, meu irmão, irritado por ter que fazer tudo de novo. Pegou uma vassoura e perguntou:
Posso usar isso, ou você, esta pretendendo ir , a algum lugar?

NÃO SE PÕE AMENDOIM NOS OUVIDOS-CHICO ANISIO-


Com tantos lugares maiores e mais práticos, o menino achou de enfiar o amendoim exatamente no ouvido. Ouvido esquerdo, que foi o escolhido por comodidade, visto tratar-se de um menino canhoto.
A família, na Tijuca, em meio ao ajantarado do domingo, mesmo na hora em que o pai procurava uma sintonia melhor para escutar as corridas, ficou em pânico por causa de uma frase.
— Mãe — disse o menino que enfiara o amendoim no ouvido —, não estou ouvindo
direito.
— Não está ouvindo direito, como? — indagou a mãe.
— Como? — inquiriu o menino dando uma inflexão diferente ao advérbio.
— Tua mãe está perguntando — intrometeu-se o pai abandonando, durante o que
dizia, a sintonia no rádio — como é que você não está ouvindo direito. Entendeu?
— O senhor está perguntando se eu entendi? — voltou o menino, sentado no lugar ao
lado da cabeceira.
— É, entendeu? — tornou o pai, levando à boca, com um ligeiro auxílio indicador-
polegar, um pedaço de rabada.
— Entendeu o quê? — desentendeu o menino.
— Você está surdo? — gritou a irmã da outra cabeceira que ficava sob a Ceia do
Senhor.
— Será que ninguém compreende o que eu falo? — vociferou o menino, já se pondo
de pé. — Eu estou dizendo que não estou ouvindo direito.
— Você não está ouvindo direito? — insistiu a mãe, já tão aflita, que nem ligava mais
para a rabada que esfriava no prato.
— O que foi que a senhora disse? — questionou o menino, retornando mais calmo ao
seu assento.
— Esse menino está doido — admitiu o pai, voltando a tentar captar a narrativa dos
páreos.
— Doido, não — contestou a mãe —, que ele não é maluco. Você é louco?
— Um pouco, mãe — respondeu o menino, pensando que a mãe lhe perguntara ser
mouco.
— Não estou entendendo coisa nenhuma — reagiu a irmã numa irritação que
mostrava que ela não entendia coisa nenhuma. — Fala comigo, Geraldinho. O que é que
há?
— Falou comigo? — quis saber o menino que enfiara um amendoim no ouvido.
— Ele está crecré — resolveu a irmã, voltando ao caqui, que era muito mais
interessante do que aquele diálogo absurdo.
Por alguns momentos, sem falar, todos comeram. Rabada ou caqui, feijão ou
melancia. O silêncio era tão absoluto que o pai quase conseguiu achar a estação que
procurava. Aí, o menino falou.
— Mãe, não estou ouvindo quase nada.
— Você já disse isso.
— O que foi que a senhora disse? — perguntou o menino que não estava ouvindo
quase nada.
— Eu disse que você já disse que não está escutando direito! — irritou-se a mãe com
a boca cheia de rabada.
— Como? — argüiu o menino com o ouvido cheio de amendoim.
— Eu acho melhor botar esse garoto de castigo — sugeriu o pai, com um dedo no dial, outro na polenta.
— Foi você quem falou, Terezinha? — perguntou o menino quase surdo ao ouvir a
voz do pai.
— Foi o pai — volveu a irmã de cabelos longos e paciência cortada rente.
— O quê? — era o menino quem perguntava.
— Geraldinho! — bradou o pai, deixando o rádio de lado numa atitude tão absurda
quanto esta estória. — Presta atenção. Olha para mim. Está escutando o que eu estou
falando?
— O senhor está falando? — sussurrou o menino, preso entre as mãos do pai que lhe
deixavam resquícios de rabada e polenta nos ombros.
— Estou! — gritou o pai, com um soco tão forte na mesa que fez a concha mergulhar
no feijão.
— Não adianta. Eu não estou escutando quase nada — monocordiou o menino
Geraldinho.
— Sabe o que é que eu acho? — ponderou a irmã. — Eu acho que o Geraldinho não
está escutando direito.
— Se ele não está escutando direito — ponderou de novo a mãe — por que não avisa?
Está escutando agora, Geraldinho?
— O quê?
— Está escutando agora? — repetiu mais alto o pai.
— Ahn?
— Está escutando? — esganiçou-se a irmã da cabeceira.
— Olhem. Eu já disse, e vocês não entendem. Eu não estou escutando direito — falou
Geraldinho, já irritado.
— Ele não está escutando direito — traduziu a mãe, tomando uma visível atitude de
defesa do filho que tinha colocado amendoim no ouvido.
— Mas por quê? — indagou o pai apoplético.
— Como? — murmurou o menino, numa pergunta a medo, pela notória apoplexia
paterna que geralmente dava motivo a surras homéricas.
O pai esqueceu as corridas de Pernambuco, que tentava escutar, e pediu um lápis que
lhe foi entregue pela filha, em meio às folhas de um caderno escolar. O pai escreveu, com
letras de imprensa, a pergunta:
— DESDE QUANDO VOCÊ NÃO ESTÁ ESCUTANDO DIREITO?
Empurrou, com má vontade, o caderno para o lado do menino.
— Quer saber desde quando eu não estou escutando direito? — quis assegurar-se o
menino de ter lido certo.
— É, Geraldinho — disse a mãe muito maternal —, desde quando?
— Como? — perguntou Geraldinho muito trêmulo.
O pai respondeu passando o dedo sob a frase que esfregava na cara do menino.
— Desde que eu enfiei um amendoim no ouvido.
Tiraram o amendoim, deram-lhe uma surra e o mandaram para fora da sala, em sinal
de protesto.
O menino foi e voltou chorando, para se sentar na cadeira em frente à tevê.
— Fazendo a gente ficar doida, esse moleque! — comentou a mãe, tirando a mesa do
ajantarado.
— Como? — perguntou o menino, que acabara de enfiar um amendoim no ouvido
direito.

sábado, 23 de julho de 2011

A PROTEGIDA DE MARIA-CONTO DOS IRMÃOS GRIMM


Na orla de uma extensa floresta morava um lenhador e sua esposa. Eles tinham apenas uma filha, que era uma menina de três anos. Mas eles eram tão pobres que não tinham mais o pão de cada dia e já não sabiam o que haveriam de dar-lhe para comer. Certa manhã o lenhador foi com grande preocupação até a floresta para cuidar de seu trabalho e, quando estava cortando lenha, lá apareceu de repente uma mulher alta e bela que trazia na cabeça uma coroa de estrelas cintilantes e lhe disse “Sou a Virgem Maria, mãe do Menino Jesus, e tu és pobre e necessitado: traga-me tua filha, vou levá-la comigo, ser sua mãe e cuidar dela.” O lenhador obedeceu, foi buscar a filha e entregou-a à Virgem Maria, que a levou consigo para o Céu. Lá a menina passava muito bem, comia pão doce e bebia leite açucarado, e seus vestidos eram de ouro, e os anjinhos brincavam com ela. Quando completou quatorze anos, a Virgem Maria a chamou e disse “Querida menina, partirei em uma longa viagem; tome sob tua guarda as chaves das treze portas do reino celestial; tu poderás abrir doze delas e contemplar os esplendores que há lá dentro, mas a décima terceira, cuja chave é esta pequena aqui, está proibida para ti: cuidado para não abri-la, pois seria a tua infelicidade.” A menina prometeu ser obediente e, quando a Virgem Maria havia partido, começou a olhar os cômodos do reino celestial: a cada dia abria um deles, até que todos os doze tinham sido vistos. Em cada um dos cômodos estava sentado um apóstolo cercado de grande esplendor, e toda aquela suntuosidade e magnificência dava grande alegria a ela, e os anjinhos, que sempre a acompanhavam, alegravam-se também. Até que, então, faltava apenas a porta proibida, e ela sentiu um grande desejo de saber o que estava escondido atrás dela. Por isso disse aos anjinhos “Não abrirei a porta por inteiro e também não entrarei, mas vou entreabri-la para olharmos um pouquinho pela fresta”. “Oh, não,” disseram os anjinhos, “seria um pecado: a Virgem Maria proibiu fazer isso, além do mais, isso poderia facilmente trazer-te a desgraça.” Então ela se calou, mas o desejo não silenciou em seu coração, mas, ao contrário, continuou roendo e corroendo-a com força, não lhe permitindo ficar em paz. E certa vez, quando os anjinhos haviam todos saído, pensou “Agora estou totalmente sozinha e poderia olhar lá dentro, afinal, ninguém ficará sabendo o que fiz”. Procurou a chave e, tão logo a apanhou, enfiou-a na fechadura e, uma vez ela estando lá, sem pensar duas vezes, girou-a. A porta abriu de um salto e ela viu a Trindade sentada em meio ao fogo e à luz. Ficou parada um momento, observando tudo com assombro, depois tocou de leve com o dedo aquela luz, e o dedo ficou totalmente dourado. No mesmo instante foi tomada de intenso pavor, bateu a porta com força e correu dali. Mas o pavor não diminuía, ela podia fazer o que fosse mas o coração continuava batendo acelerado e não havia como acalmá-lo: assim também o ouro continuou no dedo e não saía de jeito algum, não importa o quanto lavasse e esfregasse. Não passou muito tempo e a Virgem Maria retornou de sua viagem. Ela chamou a menina e solicitou as chaves de volta. Quando ela apresentou o molho, a Virgem olhou em seus olhos e perguntou: “E não abriste mesmo a décima terceira porta?” “Não”, respondeu. Então ela pousou a mão sobre o coração da menina e sentiu como ele estava batendo sobressaltado, de modo que percebeu que sua ordem tinha sido desobedecida e a porta fora aberta. Então perguntou mais uma vez: “Realmente não a abriste?” “Não”, respondeu a menina pela segunda vez. Aí a Virgem avistou o dedo que ficara dourado pelo toque do fogo celestial e teve certeza de que ela pecara, e perguntou pela terceira vez: “Não a abriste?” “Não”, respondeu a menina pela terceira vez. Então a Virgem Maria disse: “Tu não me obedeceste e além disso ainda mentiste, portanto não és mais digna de permanecer no Céu.” Nesse momento a menina caiu em profundo sono e quando despertou jazia lá embaixo sobre a terra em meio a um lugar agreste. Quis gritar, mas não conseguiu emitir qualquer som. Levantou-se de um salto e quis fugir, mas para onde quer que se dirigisse sempre era detida por sebes espinhosas que não conseguia atravessar. Nesse ermo em que estava encerrada havia uma velha árvore oca que agora teria de ser sua morada. Era lá para dentro que rastejava quando caía a noite, e era lá que dormia, e, quando vinham chuvas e tempestades, era lá que buscava abrigo. Levava uma vida lastimável, e quando recordava como tudo havia sido tão bom no Céu, e como os anjinhos costumavam brincar com ela, chorava amargamente. Raízes e frutas silvestres eram seus únicos alimentos, e ela os procurava ao redor até onde podia ir. No outono juntava as nozes e folhas que haviam caído no chão e levava-as para o oco da árvore; comia as nozes no inverno e, quando chegavam a neve e o gelo, arrastava-se como um animalzinho para debaixo das folhas para não sentir frio. Não demorou muito e suas vestimentas começaram a se rasgar e um pedaço após outro foi caindo do corpo. Tão logo o Sol voltava a brilhar trazendo o calor, ela saía e sentava-se diante da árvore e seus longos cabelos encobriam-na de todos os lados como um manto. Assim foi passando ano após ano e ela ia experimentando a miséria e sofrimento do mundo. Uma vez, quando as árvores tinham acabado de cobrir-se outra vez de verde, o rei que lá reinava estava caçando na floresta e perseguia uma corça, e como esta havia se refugiado nos arbustos que rodeavam a clareira da floresta, ele desceu do cavalo e com sua espada foi arrancando o mato e abrindo caminho para poder passar. Quando finalmente chegou do outro lado, avistou sob a árvore uma donzela de maravilhosa beleza que lá estava sentada totalmente coberta até os dedos dos pés pelos seus cabelos dourados. Ficou parado admirando-a com assombro até que finalmente dirigiu-lhe a palavra e disse: “Quem és tu? Por que estás aqui no ermo?” Mas ela não respondeu, pois sua boca estava selada. O rei falou novamente: “Queres vir comigo até meu castelo?” Ela apenas assentiu levemente com a cabeça. Então o rei a tomou nos braços, carregou-a até seu corcel e cavalgou com ela para casa, e, quando chegou ao castelo real, ordenou que a vestissem com belos trajes e tudo lhe foi dado em abundância. Embora não pudesse falar, ela era afável e bela, e assim ele começou a amá-la do fundo de seu coração e, não demorou muito, casou-se com ela. Quando se havia passado cerca de um ano, a rainha deu à luz um filho. Nessa mesma noite, quando estava deitada sozinha em seu leito, apareceu-lhe a Virgem Maria, que disse “Se quiseres dizer a verdade e confessar que abriste a porta proibida, destravarei tua boca e devolverei tua fala, mas se insistires no pecado e teimares em negar, levarei comigo teu filho recém-nascido.” Nesse momento foi dado à rainha responder, porém ela manteve-se obstinada e disse: “Não, não abri a porta proibida”, e a Virgem Maria tomou-lhe o filho recém-nascido dos braços e desapareceu com ele. Na manhã seguinte, quando não foi possível encontrar a criança, começou a correr um murmúrio no meio do povo de que a rainha comia carne humana e teria matado seu próprio filho. Ela ouvia tudo isso e não podia dizer nada em contrário, mas o rei recusou-se a acreditar naquilo porque a amava muito. Depois de um ano nasceu mais um filho da rainha. Naquela noite voltou a parecer a Virgem Maria junto dela dizendo: “Se quiseres confessar que abriste a porta proibida, devolverei teu filho e soltarei tua língua; mas se insistires no pecado e negares, levarei também este recém-nascido comigo.” Então a rainha disse novamente: “Não, não abri a porta proibida”, e a Virgem tomou-lhe a criança dos braços e levou-a consigo para o Céu. De manhã, quando mais uma vez uma criança havia desaparecido, o povo afirmou em voz bem alta que a rainha a tinha devorado, e os conselheiros do rei exigiram que ela fosse levada a julgamento. Mas o rei a amava tanto que não quis acreditar em nada, e ordenou aos conselheiros que, se não estivessem dispostos a sofrer castigos corporais ou mesmo a pena de morte, que deixassem de insistir no assunto. No ano seguinte a rainha deu à luz uma linda filhinha e, pela terceira vez, apareceu à noite a Virgem Maria e disse: “Acompanha-me”. Tomou-a pela mão e conduziu-a até o Céu, mostrando-lhe então os dois meninos mais velhos, que riam e brincavam com o globo terrestre. A rainha alegrou-se com aquilo e a Virgem Maria disse: “Teu coração ainda não se abrandou? Se confessares que abriste a porta proibida, devolverei teus dois filhinhos.” Mas a rainha respondeu pela terceira vez “Não, não abri a porta proibida”. Então a Virgem Maria a fez descer novamente à terra, tomando-lhe também a terceira criança. Na manhã seguinte, quando a notícia correu, todo o povo gritava “a rainha come gente, ela tem que ser condenada”, e o rei não conseguiu mais conter seus conselheiros. Ela foi submetida a julgamento e, como não podia responder e se defender, foi condenada a morrer na fogueira. Quando haviam juntado a lenha e ela estava amarrada a um pilar e o fogo começava a arder a sua volta, então derreteu-se o duro gelo do orgulho e seu coração encheu-se de arrependimento e ela pensou: “Ah, se antes de morrer eu ao menos pudesse confessar que abri a porta”. Nesse momento voltou-lhe a voz e ela gritou com força “Sim, Maria, eu a abri!” No mesmo instante uma chuva começou a cair do céu apagando as chamas do fogo, e sobre sua cabeça irradiou uma luz, e a Virgem Maria desceu tendo os dois meninos, um de cada lado, e carregando a menina recém-nascida no colo. Ela falou-lhe com bondade: “Quem confessa e se arrepende de seu pecado, sempre é perdoado”, e entregou-lhe as três crianças, soltou-lhe a língua e deu-lhe de presente a felicidade para a vida inteira.

sábado, 25 de junho de 2011

CONTOS HUMORISTICOS DE LEON ELIACHAR 2-EXTRAÍDO DO LIVRO O HOMEM AO CUBO


Garantia

A mulher virou para o lado, cobriu a cabeça com o tra­vesseiro e falou, com a voz sufocada:
— Desliga esse rádio, Élcio. Já é meia-noite e você pre­cisa ir embora.
Élcio nem dava bola. As palavras agora não eram tão importantes quanto os números. Aumentou o volume do rádio e falou:
— Só mais uma urna.
A mulher sentou-se na cama, indignada:
— Só quero ver a sua cara, quando o meu marido chegar.
Élcio sorriu:
— E quem é que você pensa que estou ouvindo no rá­dio, meu bem?

Papel duplo

Isabela era atriz de teatro, ia para o ensaio:
— Por que não vem comigo, amor?
Nelson, seu noivo, foi positivo:
— O último ensaio que vi, você estava muito entusias­mada, beijando aquele calhorda.
— Arte é arte, meu bem.
— Você está muito enganada. A arte tem limite.
— Discordo. A arte não tem limite.
— Mas a minha paciência tem.
— Deixa de ser bobo, você não confia em mim?
— Confio, não confio é nele.
— Você parece que nem conhece gente de teatro. No­venta e nove por cento não é de nada.
— E como é que posso saber que o sujeito que você beija não é o 1 por cento?
— Porque estou lhe dizendo que ele não é de nada. Isabela foi, Nelson ficou. Meia hora depois, ele não resistiu, ligou para o teatro:
— Por obséquio, a Isabela pode atender?
— Quem?
— Aquela moça que é beijada o tempo todo.
— Escuta, meu chapa: em cena ou fora de cena?
— Em cena, é claro!
— Então não sei quem é.

Surpresa


Zoroni era mágico há dezoito anos, há dois meses estava sem emprego. Sua mulher não se conformava:
— E agora, de que adiantam os seus truques? Quero ver é você tirar o bife da cartola. De conversa já ando cheia.
Uma noite, ele chegou em casa e teve a surpresa: a mesa estava posta, com os melhores pratos que pudesse pen­sar. Aparelho de jantar inglês, faqueiro de vermeil francês, cristais tchecos e toalhas de cambraia bordadas em Portugal. Ficou intrigado, mas não disse palavra. Comeu o que pôde, acendeu um cigarro, esparramou-se no diva, pensativo. Quan­do a mulher lhe perguntou por que estava tão triste, apro­veitou :
— Nada, não. É que arranjei hoje um emprego de faquir.
E ela:
— E isso é tão trágico assim?
— Trágico, não, humilhante. O mágico sou eu, mas quem faz a mágica é você.

Quem te viu e quem tevê

Sempre que ligava a televisão, Heloísa não resistia:
— Um dia, ainda serei garota-propaganda.
Dito e feito. Tanto insistiu que acabou arranjando um teste. Passou em todas as provas, de imagem, de som, de dicção, de interpretação, de arte dramática, de cinismo, de paciência, de irritação, de embaraço, de falta de jeito, de sor­riso parado, de gritinhos sexy, de apontar o dedo na cara, e até no "teste do jantar", que é o mais difícil — pois teve de jantar com o patrocinador. Um mês depois, começou a abra­çar geladeiras, eletrolas, fogões, máquinas de lavar, como se estivesse abraçando o próprio patrocinador. Em casa, coitadinha, estava impossível:
— Sabe, mamãe, arranjei um noivo que é ó-ó-ótimo! A mãe delirava de alegria, achava a sua filha um en­canto de moça. E ela não saía disso:
— Um noivo que é uma ma-ra-vi-lha!
E de adjetivo em adjetivo, foi comprando tudo: casa, automóvel, sítio, jóias, cachorrinho, peles, um ver-da-dei-ro-es-tou-ro! Em sua casa, ninguém mais trabalhava: família com patrocínio é fogo.


Tempo instável

Todos os dias de manhã, Eugênia vestia o short, pegava a barraca, despedia-se do marido e dizia que ia para a praia. Apesar da chuva, o marido não dava muita importância, pois não queria desmoralizar o seu emprego: trabalhava no Serviço de Meteorologia. Na véspera, Eugênia perguntava:
— Amanhã vai chover?
— Claro que não.
Não dava outra coisa. Às vezes, ele tentava sair pela tangente:
— Tempo instável, sujeito a chuvas.
Essa não. Ela queria saber, no duro, e quando ele afir­mava, dava sempre o contrário. Era discussão em cima de discussão. Até que um dia, ele resolveu ir à forra. Quando ela chegou na sala de short e barraca em punho, ele apontou a chuva na vidraça:
— Hoje não sai, não senhora, que a culpa do mau tem­po não é minha. Pedi demissão ontem, olha aqui o papel assinado pelo chefe.
Quando acabou de falar, apareceu o maior sol na janela.


Desafio

Valentim era pintor de nus artísticos. Sua mulher costu­mava dizer:
— Tantos anos na Escola de Belas-Artes, pra no fim dar nisso. Isso é lá profissão de gente?
Valentim respondia:
— O que você tem é ciúme, Margarida. Um dia, ela foi agressiva:
— É muita falta de imaginação de sua parte, Valentim. Só consegue ver mulher nua com um pincel na mão.
Ele deu um riso de piedade:
— O ciúme transtornou você, Margarida. Ela se queimou:
— Ciumento é você, quer apostar? Ele não recuou:
— Quero.
— Então me pinte nua, agorinha mesmo, e depois ponha o quadro numa exposição.
— Feito.
Ela tirou a roupa, ele espalhou as tintas. Dois meses depois, o quadro ganhou medalha de ouro numa exposição abstracionista.

A janela

Gracinda só gostava de dormir com a janela fechada. Seu marido, João, só gostava de dormir com a janela aberta. Moravam no térreo, o que vem provar a teoria de que os últimos serão os primeiros, pois no mundo de hoje começa-se a morar de cima para baixo — por causa das cascas de ba­nana que costumam jogar lá do alto. Mas isso não vem ao caso, o que importa é que quando apagavam as luzes para deitar, Gracinda e João mantinham sempre o mesmo diálogo:
— Estou com frio, João.
— Estou com calor, Gracinda.
Ninguém dormia. Um esperava o outro cochilar, levan­tava de mansinho e ia até a janela pra colocá-la a seu gosto. O outro levantava depois e fazia o contrário. Depois das qua­tro é que dormiam de cansaço, às vezes com a janela aberta, às vezes fechada. Só de manhã cedo é que conferiam pra ver quem ganhou a parada. Nesta noite, a cena se repetiu, como num vídeo tape. Gracinda falou sem sair debaixo do lençol, com a voz sonolenta:
— Fecha a janela, João.
Um vulto saiu por detrás das cortinas:
— João, não, Pedro.
No dia seguinte, deram por falta das jóias.


Cartas na mesa

Quando o ônibus parou, Dorotéia viu um anúncio de cartomante. Saltou depressa, decidiu arriscar a sorte. No velho casarão, com móveis antigos, uma senhora idosa espalhou as cartas em sua frente:
— Vejo um louro em sua vida.
Dorotéia se arrepiou, dentro dos seus quarenta e seis anos,
— Um louro alto e forte? E a cartomante, sinistra:
— Um louro baixo e fraco. Um papagaio.


O quarto

Quando Gertrudes ligou pra saber do quarto de frente para o mar, não esqueceu da exigência do locador: "para pessoa de fino trato".
— Por obséquio, cavalheiro, foi daí que colocaram um anúncio muito bem redigido, procurando uma pessoa para co-habitar com a sua distinta família?
— Em primeiro lugar, minha senhora, não tenho famí­lia, em segundo, não botei nenhum anúncio no jornal, em terceiro, isto aqui é um supermercado e tenho muito que fazer e vê se não amola.
Desligaram. Gertrudes tentou de novo, veio a mesma voz e a mesma resposta. Tentou diversas vezes, o sujeito já estava engrossando. Olhou o anúncio com cuidado, conferiu o número, a mesma voz sem educação. Gertrudes perdeu a paciência, acabou perdendo também o "fino trato", discou pela última vez:
— Olha aqui, seu cafajeste. Sei que o senhor não tem família, sei que o senhor não quer alugar um quarto, sei que aí é um supermercado. Mas presta atenção, seu imbecil, de outra vez que botar um anúncio no jornal vê se põe o telefone direito, ouviu?
E desligou, aliviada.


Acidente

Leocádia era dessas que tinham verdadeira alucinação por lingerie. Pra ela, o mais importante na linha da elegância era a roupa de baixo. Todos os dias, chegava em casa, abria os embrulhos na frente do marido, exibia calcinhas com bordadinhos e rendinhas de todas as cores e de todas as qualidades de tecidos. O marido não entendia:
— De que adianta tudo isso, se ninguém vê? Ela sorria, orgulhosa:
— É o que você pensa. Pode dar um ventinho na rua, sabe lá?
Um dia ele estava no escritório, quando o chamaram ao telefone. Era do Hospital dos Acidentados, pra lhe comunicar que a sua mulher havia sofrido um desastre. Correu pra lá e assim que fez a descrição da mulher, um enfermeiro disse pro outro:
— Ei, você aí. Leve este senhor naquele quarto. Está procurando aquela senhora sem calça.
Teve um troço, foi medicado ali mesmo. Duas semanas depois de Leocádia ter alta, ele continuou no hospital, em convalescença.


Amnésia

Zora chegou em casa tarde da noite, encontrou a porta encostada, foi diretamente para o quarto. Mudou de roupa no escuro, pra não acordar o marido, deitou ao seu lado. Quan­do percebeu que ele estava acordado, foi falando:
— Você me desculpe, Henrique, mas é que estou com amnésia profunda. Não me lembro de nada, perco a memória temporariamente e quando a recupero, não tenho a menor idéia do que se passou. Hoje peguei um ônibus pra vir pra casa, mas devo ter ido parar muito longe, não sei nem como explicar. Se você me perguntar como foi, não sei dizer.
A luz se acendeu e Zora pôde ver um homem nu ao seu lado exclamar:
— E agora, já recuperou a memória? Zora ficou perplexa, quase muda de emoção:
— Claro que já. E ele:
— Então pode ver facilmente que não me chamo Hen­rique, não sou seu marido e a senhora provavelmente deve ter entrado no apartamento errado.
Zora desmaiou. Dessa, nunca mais ela ia esquecer.

terça-feira, 21 de junho de 2011

OSSOS DO OFICIO-EXTRAIDO DE SELEÇÕES-CASOS HUMORISTICOS 2



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Sou médica e certa vez depois de um dia cansativo de trabalho, cheguei em casa e fui conversar com minha mãe, estavamos falando sobre cinema, quando eu querendo lhe contar sobre os efeitos especiais de um filme que tinha visto, disse ainda em espirito de plantão.
-A história não é boa, o que vale mesmo a pena, são os efeitos colaterais!

http://jottas.files.wordpress.com/2010/12/coveiro.jpg

Na audiência do caso de um coveiro, criente do meu tio. O Juíz lhe perguntou sobre a frequência dos enterros. O rapaz respondeu:
-No começo teve poucos enterros, mais depois foi melhorando!

http://img.ibiubi.com.br/produtos/4/2/5/4/4/2/9/img/01_secretaria-eletronica-panasonic_grande.jpg

A gravação da secretária eletrônica da emprêsa de onde eu trabalho, dizia o sobrenome de minha colega Sarah errado. Ela pediu a correção, mas o encarregado disse:
-Descupe, a solicitação, deve vir por e-mail.
-Tudo bem, é só você me dizer como colocar no e-mail a pronùncia correta de Zuchschwerdt.

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Uma senhora um tanto surda, apresentou o meu pai ao restante da equipe do escritório.
-Andrew, Neville. Neville, Andrew.
Quando ela se foi , meu pai disse:
-Na verdade meu nome é Neil.
-Não se preocupe-disse o outro-Eu me chamo Allan, muito prazer.

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjnr5kVVU-6yd50YLQeUn1E0S6KRPrsbRRlcAP5XWFKOtXfpddhnTKf_8HBCXEy5MlCj76wTatxQTCyBY1C4R08P8fOfbSwXEg7cQ52D_aBq8-zfsQyCktqIdSfxo1mSAzF1RTTiyswuw/s1600/dia_dos_avos.jpg

Convidamos os avós dos alunos para um dia Especial em nossa escola, que culminaria com uma foto em que todos posariam em frente a um mural colorido, na sala de história.Só depois do último clique, foi que percebemos que apareceu em cima da cabeça dos vovózinhos um galhardete, que dizia:
¨Descubra o mundo antigo¨.

sábado, 18 de junho de 2011

CONTOS DE ALFRED HITCHCOOK-HISTÓRIAS ASSUSTADORAS


Sentindo a iminência dum pedido de casamento Inger se preparou pro jantar com cuidado especial e sem sacrificar da pontualidade. Corey gostava que suas mulheres fossem bonitas, pontuais e, normalmente, alguns anos mais jovens que Inger podia alegar ser. Mas, ainda beirando os 30 anos, ela se recusara a sofrer pontada de desespero durante o namoro de dois meses.
Como um bom presságio, Corey a levou ao Windward. Era caro e íntimo. Velas bruxuleavam. Os martínis foram servidos em copos gelados. Depois da refeição, enquanto tomavam café e conhaque, os olhos dele se fixaram afetuosamente nos dela, sua voz baixou uma oitava. Se não fosse pelo fato da atenção dela se desviar subitamente a um homem de boca larga e sorridente, o momento poderia ter chegado. O sorriso do homem era tão efusivo e tão obviamente dirigido a Corey que ela teve certeza duma interrupção. Estava certa. O homem se aproximou da mesa e cortou o ânimo de Corey.
— Olá, Core. Pensei ter te reconhecido antes mas está muito escuro aqui dentro.
Ele presenteou Inger com uma exibição dos dentes brancos e compridos, alongando o rosto atarracado. Os olhos eram dum azul bem claro, o cabelo louro se encurvava no final de cada mecha. Inger olhou a Corey e sentiu um choque quase elétrico pelo que viu. Os músculos em torno da boca de Corey relaxaram, estavam tremendo.
— Olá, Ray. — Disse Corey, balbuciando depois de breve hesitação. — Esta é Inger Flood. Inger, Ray Chaffee.
Inger murmurou:
— Como vais?
— Que maravilha! — Disse Chaffee, com uma exclamação de admiração. — Tens muito bom-gosto, Core. Imagino que tiveram um jantar íntimo e extremamente agradável. E uma pena que tenhas de ir embora agora?, hem, Core.
— Pelo-amor-de-deus!, Ray.
— Mas tiveste sorte, Core. Eu poderia ter te reconhecido antes do filé. Foi filé, não é?, senhorita Flood. Core nunca teve muita imaginação pra comer.
— Ambos comemos um filé. — Declarou Inger, decidida a se manter controlada. — Também não tenho muita imaginação.
O sorriso se desvaneceu, deixando uma expressão de malícia afável.
— Vamos logo, Core. — Disse Chaffee, a voz musical. — Trates de ir embora. Deixes o conhaque. O terminarei por ti. Ainda tens crédito aqui. Não é? Pois passes na caixa e avises pra porem a nota em tua conta. Vamos, Core, te mexas!
O choque de Inger se transformou em perplexidade. Corey estava se levantando.
— Inger, lamento muito...
— Lamentas? Mas o que está acontecendo?
— Tenho de ir embora. — Murmurou, desesperado. — Telefonarei a ti mais tarde. A tua casa.
— Nada disso! — Interveio Chaffee, bruscamente. — Chega de telefonema nesta noite, Core. Pares de financiar a companhia telefônica. Vás a casa e te deites. Amanhã... Ora! Veremos o que se poderá fazer amanhã.
Inger começou a se levantar também mas, inacreditavelmente, a mão do estranho estava em seu ombro, a empurrando de volta à cadeira.
— Ficarás aqui, senhorita Flood. Não precisas ter pressa.
— Mas o que é isso?! — Disse Inger, finalmente sentindo raiva. Corey, queres fazer o favor de dizer a esse homem...
— Não precisas fazer onda. — Disse Chaffee, suave e zombeteiro.
Se sentou ao lado de Inger. Corey hesitou mais um instante, até que Chaffee lhe sacudiu a mão bruscamente, num gesto autoritário. Corey se virou, como se atingido por um chicote invisível e se encaminhou à porta, a tensão estampada nas costas. Inger fez outra tentativa de se levantar mas Chaffee a segurou no cotovelo.
— Fiques, por favor. Não vás ainda. Não é agradável ficar sentada aqui sozinha.
— Não ficarei sentada sozinha. — Disse, rispidamente. — Nem contigo. E tires a mão de meu braço ou começarei a gritar. Poderás descobrir o que isso significa pra teu crédito.
Não havia sinal de Corey na rua. Inger esperava que surgisse de repente num portal e explicasse a brincadeira. Mas, exceto por um táxi parado a alguma distância, a rua estava deserta. Fez sinal ao táxi.
Na manhã foi despertada pelo telefone e não pelo despertador.
— Inger?
— Vás ao Inferno!
— Não posso te culpar por estar tão zangada. — Murmurou Corey. — Não posso te explicar agora mas prometo que ainda o farei. Eu não sabia que Chaffee estava no restaurante. Pra ser sincero, nem sabia que estava na cidade. Pensei ter me livrado do filho-da-puta durante seis semanas, que sua companhia o tivesse enviado à América do Sul numa missão especial.
— Ó, Corey, te cales! — Exclamou Inger, se sentando na cama. — Foi uma brincadeira de mau-gosto e ainda não estou completamente desperta pra ouvir um pedido de desculpa.
— Queres almoçar comigo?
— Não.
— Por favor!, Inger.
O encontrou num restaurante do qual nunca ouvira falar antes, num bairro fora de mão. Não fez conexão entre a obscuridade do restaurante e Ray Chaffee até que tateou o caminho no interior escuro pra alcançar a mesa isolada de Corey, no fundo.
— Quero que me digas uma coisa, Corey. Estás te escondendo daquele homem?
— Como assim?
— Este buraco que escolheste parece ser freqüentado apenas por curtidores portugueses e gente parecida. O escolheste apenas por causa de teu amigo?
— Não digas bobagem. — Corey sorriu. — É um restaurante agradável e sossegado. Muito bom pra namorar.
Ele a beijou na boca, obtendo uma retribuição apenas parcial. Depois pediu os drinques e, sem esperar a pergunta, tratou de responder:
— Claro que foi uma brincadeira o que aconteceu ontem na noite. Mas é uma coisa tão estúpida que quase desafia explicação.
— Mas tentes explicar.
— É uma espécie de aposta, uma brincadeira permanente que tenho com Chaffee.
— Mas quem é? Trabalhas pra Chaffee? É teu patrão?
— Não. É apenas um amigo, usando a palavra no sentido mais amplo. É engenheiro de computador. Estivemos juntos na universidade. Chaffee, eu e mais alguns outros tínhamos uma roda de pôquer que acabou sendo dissolvida por dois ou três casamentos. Sabes como são essas coisas.
— Não. Não sei. A maneira como aquele homem ordenou que saísses. E a maneira repulsiva como obedeceste...
Corey se recostou nas sombras e riu. O divertimento parecia genuíno mas Inger não estava convencida.
— Devo ter parecido um idiota. Mas tinha de ser assim, meu bem. Não posso esperar que compreendas. Tudo o que espero...
Abruptamente parou de falar.
— O que é?
— Não espero alguma coisa agora. Mas dentro de dois minutos...
— O que mudará em dois minutos?
— Talvez muita coisa.
Corey meteu a mão no bolso e tirou uma caixa pequena, revestida de veludo. Inger prendeu a respiração, enquanto ele acrescentava:
— Te lembras do que te falei daquela débil-mental de quem estava noivo?
— Leila?
— Isso mesmo, Leila. E te lembras de que falei que devolveu o anel de noivado?
Inger ficou rígida enquanto ele levantava a tampa, mas a caixa estava vazia.
— Não estou entendendo.
— Eu não permitiria que usasses o maldito anel daquela mulher. Passei na joalheria nesta manhã e acertei uma troca. Podes passar lá a qualquer hora e escolheres o anel que quiseres. Isso é, se quiseres.
Inger olhou da caixa vazia ao rosto dele mas outra imagem se interpôs.
Era um garção, carregando um telefone vermelho.
— Mas o que é isso? — Resmungou Corey. — Deve ser um engano.
— Não, senhor — declarou o garção. — É mesmo pra ti, senhor Jensen.
Corey pegou o fone e disse um alô perplexo. A centímetros de seu ouvido, Inger ouviu a voz metálica de Ray Chaffee:
— Passarinho, passarinho, por que fugiste de casa? Ela está pegando fogo e teus filhos morrerão.
— Ray, seu miserável!
— Estás sendo insolente, meu velho. E sabes que não tolerarei insolência.
— O que queres? Como soubeste que eu estava aqui? Estás me seguindo de novo?
— Caias fora daí, Corey. Tua presença num lugar assim me ofende. Estou no outro lado da rua, numa cabina telefônica. Espero te ver passar a porta dentro de dois minutos. Não, serei camarada: Dou três minutos.
— Corey, desligues esse telefone! — Interveio Inger, a cabeça zumbindo.
Foi exatamente o que Corey fez. Inger pensou que a brincadeira terminara mas estava enganada. Corey estava largando o guardanapo em cima da mesa e empurrando a cadeira a trás.
— Escutes, Inger...
— Não! Não me digas! Irás mesmo embora?
— Tenho de ir, meu bem. É uma coisa que não posso evitar. Tomes aqui! — Pôs a caixa de veludo na mão dela. — O nome da joalheria está escrito na parte de dentro da tampa. Talvez possas passar lá ao voltar a casa nesta noite.
— Corey. — Disse ela, incisivamente — Se saíres daqui agora e não me explicar por que...
— Peças algo pra comer. — Ele lançou um olhar nervoso à porta e largou uma nota de 10 dólares em seu prato. — Peças rosbife. É muito bom aqui. Ligarei a ti mais tarde.
— Se fores embora agora, não quero que me telefones mais tarde!
Mas ele foi.
Inger não pediu o almoço. Usou o dinheiro pra pagar os drinques e foi embora sem se impressionar com o grunhido de insatisfação do garção. Chegou faminta ao escritório às 3h e comeu uma torta horrível comprada no carrinho de café.

Corey apareceu no apartamento dela, sem avisar, em volta das 22:30h. Inger já se vestira pra deitar, com uma camisola tão transparente que a situação poderia ser provocadora. Mas o ânimo de Corey e também o dela, se diga de passagem, impediam qualquer coisa além de conversa e uísque. Se sentaram na pequena sala de estar, um tanto desarrumada.
— Muito bem, Inger. Contarei toda a história. Não o podia fazer antes, pois isso fazia parte do acordo. Mas estive com Ray e concordou. Até gostou da idéia de saberes, o que proporcionou uma emoção vulgar ao desgraçado.
Parou de falar, terminou o escocês que tinha no copo. Inger esperou recomeçar:
— Sou seu escravo, Inger.
Ele se levantou pra tornar a encher o copo, usando a ação como pretexto pra não a fitar.
— Sei que parece absurdo, mas não é tanto assim. Não estou querendo dizer que me comprou num leilão de escravo ou que temos alguma relação sexual maluca no estilo de Krafft-Ebing. Ambos somos corretos, embora essa seja uma maneira um tanto exagerada de descrever Ray Chaffee. O que estou querendo dizer é que tenho de fazer tudo o que mandar, praticamente tudo. Claro que nada faria que me causasse um mal físico. Não pode me mandar, por exemplo, pular duma janela. Isso não estaria nas regras.
— Regras?
— Sou escravo há quase 10 meses. Restam menos de 10 semanas pra que tudo acabe. Mas não precisas ficar preocupada. Pensei muito em ti, pensei em nós, nesta situação, decidi que não deveria te encontrar, até que este maldito ano chegasse ao fim. Mas com Chaffee viajando, pensei que poderia correr o risco.
— Correr o risco de quê?
— Afinal, estava na América do Sul. Deve ter morrido de raiva por ser enviado até lá justamente agora. Estava começando a gostar de ter um escravo, de poder mandar nalguém e ser sempre obedecido. E se tornava mais mesquinho a cada dia, pensando em novas maneiras de me fazer sofrer.
— Não posso estar ouvindo direito, Corey. Devo ter me deitado há uma hora e tudo não passa dum sonho.
— No caminho a cá — continuou Corey, muito tenso — tentei decidir o que era pior: Contar a ti ou nada dizer. Qualquer que fosse a decisão eu poderia te perder. Não queres outro drinque?
— Não.
— Pois quero.
Corey foi encher o copo mais uma vez. Quando voltou estava disposto a enfrentar os olhos dela.
— Inger, contarei toda a verdade. Há cerca de 10 meses, Chaffee, eu e mais dois caras tínhamos uma roda de pôquer e garotas.
— Não mencionaste as garotas antes.
— Elas jamais atrapalhavam o pôquer. Seja como for, estávamos todos sentados em torno duma mesa numa noite, bebendo. Começamos a falar sobre escravidão. Isso é, a escravidão nos dias atuais. Ainda existe, sabes. Há muito tráfico de escravo no Oriente Médio e lugares assim. Houve uma coisa em que, todos concordamos. Ou melhor, duas. A primeira foi: A escravidão não é horrível? Nada há de original nisso, é claro, mas é o primeiro sentimento de quem sempre viveu à sombra da bandeira ianque. Mas também concordamos que a escravidão podia ser terrível pro escravo mas era, certamente, algo muito bom pro amo. Pondo de lado todas as considerações morais, o que há de tão ruim em ter dois ou três escravos? Encaremos a verdade: Devia ser uma coisa maravilhosa. Era o que fez a escravidão tão popular durante muitos séculos, mesmo em civilizações supostamente esclarecidas, como a grega e romana. Sabiam que era moralmente errado o que faziam mas não dispunham de máquina pra tornar a vida confortável e por isso justificavam a prática. Mesmo hoje, penses em todas as pessoas que vivem disputando criados. Te lembres das mulheres gordas nos clubes femininos, passando a metade da vida dando ordens às criadas e a outra metade falando delas. E quando uma delas diz Minha Bernice é uma jóia preciosa, está se referindo à criada mais como uma escrava, mais como se fosse uma preta escrava sulista dos velho tempo do que como empregada remunerada. Não estou certo?
— Por favor, Corey, me poupes os comentários sobre a injustiça social.
— Está bem. Está bem. O que estou querendo dizer é que a escravidão é atraente. Chaffee até encontrou uma citação de Tolstói a respeito, embora eu ache que só a procurou depois da aposta.
— Aposta?
— É sobre isso que quero falar: A maneira como tudo começou. Sabes quem foi Tolstói. Uma espécie de santo russo, defensor da liberdade individual. Só que escreveu, em seu diário, que a escravidão é um mal, mas um mal extremamente agradável.
— Mas ainda continua a ser um mal. Não é?
— Por que é involuntária. Os escravos não escolhem ser o que são. São arrebanhados por traficantes ou vendidos pelos próprios pais, como acontecia com as meninas na China antiga. Ou eram capturados em guerras, como no caso dos gregos e romanos. Mas se a escravidão fosse voluntária, se fechando o vazio moral...
— Foi isso o que fizeste? Voluntariamente te ofereceste pra ser escravo?
— De certa forma, Inger. De certa forma. Foi assim que a noite terminou, numa espécie de aposta que Chaffee e eu fizemos. Bebêramos muito, mas mesmo, assim definimos os termos, as regras e condições. Uma das regras era o sigilo e é isso o que está me permitindo violar nesta noite.
— Estás falando sério? Não é brincadeira?
— Não, Inger, não é brincadeira. Infelizmente, é a pura verdade. Chaffee apostou que eu não poderia sobreviver como seu escravo durante um ano. Mas o prazo está quase acabando. Eu ganho, ele perde e as coisas voltam ao normal. Mas eu não poderia desistir agora. Entendes? Depois de 10 meses eu seria louco se desistisse, mesmo que me pedisses, mesmo que impusesses uma condição pra encher aquela caixa que dei a ti.
— Não achas que estás querendo demais?
— Eu não poderia desperdiçar esses 10 meses, Inger. Chaffee me fez conhecer o Inferno e pode se tornar ainda pior, mas não lhe darei a satisfação de desistir antes que o ano termine.
— Pareceis duas crianças estúpidas! Deveríeis levar uma boa surra!
— Não foi tão terrível assim no começo. — Disse Corey, olhando o teto. — Chaffee não estava acostumado a ter um escravo. A princípio me pedia pra fazer as coisas, era polido, sempre usava por favor. E todas as ordens eram ínfimas, como fazer pequenos serviços, ir à biblioteca, chamar táxi. Era um trabalho fácil.
— E depois mudou?
— Não podia me pedir pra fazer algo que pusesse em risco minha saúde, emprego ou dinheiro...
— Mas podia te humilhar. Eis algo que podia fazer.
Não podia me obrigar a fazer coisas malucas em público. Nada que pudesse fazer com que a polícia me prendesse. Mas qualquer outra coisa. Sou obrigado a fazer ou não seria seu escravo. Entendes? Um escravo obedece sem questionar. Isso é a própria essência, a incapacidade de recusar as ordens do amo. Mas Chaffee levou muito tempo, quase meio ano, pra descobrir alegria nisso.
— Alegria?
— Isso mesmo. — Corey revirava o copo entre as mãos, interminavelmente. — Há uma alegria nisso, quase um êxtase. É mais do que a conveniência de ter alguém pra executar todas as ordens. No fundo há algo de poder. É por isso que as pessoas se digladiam buscando poder político, social, financeiro. Qualquer um. É o prazer de dominar as pessoas, a fazer obedecer pelo simples ato de estalar o chicote.
Inger deixou escapar um muxoxo de repulsa.
— É verdade, meu bem. Sou o escravo e é o amo, mas posso perceber o que faz. O poder total sobre outro ser humano. Depois de seis meses Chaffee começou a sentir que o tempo se escoava rapidamente e foi ficando desesperado e mesquinho. As ordens se tornaram mais brutais e mais freqüentes. Foi nessa ocasião que deixamos de ser amigos e nos tornamos o que somos agora: Amo e escravo. Apenas isso, nada mais que isso. E foi também nessa ocasião que começou a gostar.
Inger se aproximou dele, parecendo inebriada e linda.
— E não desistirias? Nem mesmo que eu pedisse?
— Já te disse. Se tivéssemos nos conhecido há cinco ou seis meses, antes de Chaffee começar a estalar o chicote, talvez eu estivesse disposto a desistir, a perder todos os meses que já investira. Mas não agora.
— Corey, me amas?
— Por-deus-do-céu! Ainda não disse isso?

Mais tarde, ela pediu de novo.
— Não, Inger, não é possível. Achas que aquelas situações nos restaurantes foram horríveis? Pois já houve outras bem piores. Tenho feito todos os tipos de serviço sujo. Já fui seu valete, mordomo, faxineiro. Já abri mão de muitas noites, de fins de semana, até das horas de almoço, sempre que assim quis. E então passou a me seguir em toda parte, me obrigando a renunciar a hábitos, prazeres, amigos.
— E às mulheres também?
— Me obrigou a romper com todas as namoradas. Houve uma ocasião, quando procurou a garota com quem eu saía e contou o que eu era.
— Pensei que as regras básicas.
— Só se aplicam a mim. O amo não precisa guardar segredo. Só o escravo está obrigado. E naquela noite contou a ela. E a débil mental...
— Foi Leila?
— Isso mesmo. E talvez Chaffee me tenha feito um favor nesse caso. Mas não esquecerei a maneira como nos abordou.
— E disse a ela que eras seu escravo?
— Disse e provou. Me obrigou a rastejar na frente dela. E aquela débil mental riu. Achou que era engraçado, hilariante. Pediu a Chaffee que a deixasse ter um pouco de ação, queria brincar também. E no resto da noite fui também escravo dela, porque isso é parte do acordo. Se tens um amo passas a ser escravo de toda a raça humana.
— Oh, Corey! — Inger pressionou o rosto contra o ombro dele. — Como pudeste agüentar isso? Por que não o mataste? Eu teria esmagado a cara dele e a dela também!
— Tens razão, Inger. Os escravos se revoltam. E isso faz parte da diversão. Só que eu não o podia fazer. Entendes? Havia investido demais.
O telefone tocou. Já passava de meia-noite e o telefone de Inger era normalmente silencioso naquela hora.
— Devo atender? — Sussurrou ela. — achas que é...
— Tenho certeza que é.
Inger atendeu e a voz de Ray Chaffee disse, suavemente:
— Como vais?, boneca. Estás com o ouvido doendo? Nosso garotinho já chorou todas as mágoas?
— Estou contente, que tenhas ligado, senhor Chaffee. — Disse Inger. — Muito satisfeita. Assim tenho a oportunidade de dizer o que penso a teu respeito.
— Poupes teu fôlego. — disse Chaffee, friamente. — Me deixes falar com o rapazinho.
— Só depois de me ouvires.
— Me enches o saco e eu descarregarei em cima dele. Estás entendendo?, boneca.
Inger hesitou um instante mas acabou passando o fone a Corey. E o ouviu dizer:
— Está certo. Já entendi. Está bem. Está bem. Eu disse que faria e farei.
Suspendeu o telefone, na direção de Inger. Mas não a olhou, enquanto dizia, a voz sem inflexão:
— Ray quer que eu vá embora agora, meu bem. Mas não quer que fiques solitária. Disse que terá o maior prazer em vir até aqui pra fazer companhia a ti. Disse que conhece uma maneira de te manter quente e satisfeita.
— Corey!
— Eu agradeceria se concordasses, Inger. Não posso te obrigar, é claro, mas consideraria um grande favor a mim se deixasses Ray subir agora.
Via fone ela podia ouvir o risinho seco e musical de Chaffee.
— Saias daqui! — Gritou Inger. — Sumas da minha frente!, Corey.
— Por favor, Inger. Poderia ao menos falar com ele?
Ele estendeu o fone a mais perto mas Inger recuou. Corey engoliu em seco e tornou a aproximar o fone de sua boca, dizendo:
— Com todos os diabos, já fiz o que mandaste! Mas ela não quer falar contigo e isso é uma coisa que não posso controlar!
Desligou e se virou a Inger, com os olhos marejados de lágrima.
— Prometi que diria isso, meu bem. Era o preço por te contar a verdade.
— Não me ouviste? Sumas daqui, Corey. Não te quero aqui. E nunca mais quero tornar a te ver. Nunca mais!
Corey deu de ombros. Não era um gesto de indiferença mas de resignação. E depois saiu, fechando a porta sem fazer barulho.

Inger não tornou a ter notícia dele até o fim de semana. Corey telefonou na tarde de sábado e falou cum sussurro de conspirador:
— Estou na galeria Frederick. Na Médisson. Inverti as posições desta vez e passei a o espionar. Seu apartamento fica no outro lado da rua e acabei de o ver saindo com o carro. Assim, podemos nos encontrar em segurança.
— Pode ser seguro mas não significa que eu queira te ver. — Disse ela, friamente.
Mas Inger acabou indo à galeria. Estava cheia de paisagem ondulante. Corey a recebeu cum sorriso triste e disse:
— Esqueci de pedir que trouxesses dramamina.
Em vez de rir Inger começou a chorar, embora não alto demais que incomodasse os demais freqüentadores da galeria. Corey a levou a um canto, protegendo a ambos com o cardápio, enquanto dizia.
— Tenho uma idéia. Meu acordo com Chaffee durará mais nove semanas. Não quero te ver até lá. Nem tentarei te encontrar. Acabaria descobrindo. E isso só serviria pra piorar a situação.
— Nove semanas? Mas isso é terrivelmente injusto!, Corey.
— Mas é o único jeito. É melhor o fazer pensar que rompemos, pois só assim nos deixará em paz. Te deixará em paz. Depois disso, caso não tenhas conhecido outro homem que te interesse, até lá...
— Seu idiota! — Disse ela, tragicamente, o segurando nas lapelas. — Achas que eu poderia querer algum outro?
— Vamos até a joalheria, Inger. Agora. Se estiveres com meu anel no dedo, talvez isso faça uma grande diferença.
Ela escolheu um diamante solitário, sem baguete ou engaste fantasioso. Corey achou que o anel era desnecessariamente austero, mas Inger queria assim mesmo. Voltando a casa o lembrou de que ainda não fizera um pedido de casamento formal. Ele disse que queria o cenário romântico apropriado. Assim, subiram a rua 59 e pegaram uma charrete, entrando no parque. Inger chorou durante a maior parte do tempo, mesmo depois do pedido de casamento. O abraçou freneticamente, sussurrando:
— Corey, vamos juntos até minha casa. Não me deixes agora. Viste aquele homem horrível se afastando. Talvez não nos incomode. Venhas comigo, por favor, Corey.
Foram ao prédio de apartamento em que Inger morava. Um pequeno conversível marrom estava estacionado perto do toldo da frente. Ray Chaffee não estava ao volante mas Corey conhecia o carro.
— Está aqui, Inger. É melhor eu ir embora.
— Não, Corey, por favor! Pode estar esperando no saguão ou no corredor, lá em cima. E tenho medo dele!
— Não precisas ter. Não tem como te dominar. Se tentar algo digas que chamarás a polícia. Se ameaçar contra mim digas que não te importas, que já rompemos.
— Isso é horrível!
— Telefonarei a ti mais tarde.
Corey se virou e se afastou rapidamente. Exatamente como receara, Inger encontrou Chaffee esperando, sentado numa poltrona azul bastante velha, no saguão.
— Boa noite, senhorita Flood. Por acaso viste nosso amigo, senhor Jensen?
— Não, não tenho visto teu amigo e também não quero ver. Nunca mais!
— Nesse caso não estarias procurando um novo amigo? — Ele sorriu. — Não sou uma mercadoria tão desprezível assim. Talvez um pouco suja mas ainda capaz de prestar bom serviço.
— Boa noite. — disse Inger, quando elevador chegou. Mas ele pôs a mão na porta.
— Não comeces com brincadeira, senhorita Flood. Onde estás escondendo o rapazinho? O meteste no armário ou debaixo de tua cama?
Inger ficou parada. Havia um porteiro nas proximidade, provavelmente lendo o Daily News na frente do elevador de serviço. Pensou em o chamar mas acabou mudando de idéia.
— Está bem. Por que não sobes e verificas pessoalmente? De qualquer forma, preciso perguntar uma coisa.
Ele ficou surpreso. Durante um momento Inger o deixou desequilibrado mas, entrando no apartamento, se recuperou e passou o braço na cintura dela. Inger deu um passo de dança pra se desvencilhar e disse:
— Quero que me faças um favor. Canceles essa aposta que fizeste com Corey.
Ele ficou desconcertado e divertido.
— Queres que eu liberte o escravo? Que emita uma proclamação de emancipação?
— Isso mesmo. Já está cansado da brincadeira e acho que o mesmo acontece contigo.
Por mais estranho que pudesse parecer, o sorriso se desvaneceu.
— Queres saber duma coisa? Tens toda razão. Se tornou um fardo terrível, não apenas ao pobre Corey mas também a mim. Sabia que dá muito trabalho ter um escravo? É uma responsabilidade e tanto. É como herdar uma grande fortuna. A pessoa fica na obrigação de ter sempre de fazer algo a propósito. Acordo, às vezes, durante a noite, tentando imaginar como poderei usar Corey no dia seguinte. Parece doentio. Não é? Mas provavelmente estás pensando que sou doente. Corey deve ter dito que sou mesquinho e brutal.
— E não é verdade?
— Todos os amos parecem mesquinhos e perversos a seus escravos. Mas não te preocupes. O velho Corey terá o que merece.
— Quanto vale?
— Como?
— Quanto vale vossa aposta? Estou disposta a fazer um acordo, senhor Chaffee.
— Não sei do que estás falando.
— Estás apavorado com a possibilidade de Corey completar um ano de escravidão. Não podes deixar de tentar imaginar as coisas mais horríveis pra o obrigar a desistir. Mas também tenho direito a Corey. E se fizeres o que eu disser, darei um jeito pra que fiques com teu dinheiro.
Tornando a sorrir, ele perguntou:
— É uma proposta?
— É, sim. Se suspenderes a aposta, imediatamente, prometo que receberás até a última moeda que Corey ganhar.
— Achas mesmo que podes controlar o rapazinho à vontade? Mas que coisa interessante!
Chaffee passou a mão no cabelo louro e liso. Então foi avançando, lentamente, em direção a Inger.
— Queres saber duma coisa? Recomendo que experimentes outra forma de persuasão. Não podes compreender como tenho pouco interesse por dinheiro.
As mãos dele estavam em cima de Inger, que deu uma volta com o corpo e se descobriu nos braços dele. Chaffee era mais forte do que parecia e ela ficou apavorada. O golpeou com a mão esquerda, no rosto. Bateu com toda força e sentiu a ponta do diamante cortar a carne. O olho se avermelhou e inchou quase que no mesmo instante. Chaffee soltou um berro de dor e cobriu o rosto cuma das mãos.
— Me machucaste! — Gritou ele, furioso. — Sua estúpida! Por que tinhas de fazer isso?
Ele tirou do bolso um longo lenço impecavelmente dobrado e o comprimiu contra o rosto. Olhou depois o vestígio de sangue no lenço. Empalideceu e Inger chegou a pensar que ele desmaiaria.
— Sua estúpida! — Repetiu Chaffee.
Ele tornou a comprimir o lenço contra o rosto e saiu pela porta. Inger olhou o anel de noivado em seu dedo, tocou no diamante e disse em voz alta:
— O melhor amigo duma mulher.

Ela não sabia que horas eram quando as batidas começaram! Sabia apenas que não era uma hora oportuna pra alguém fazer todo aquele tumulto na porta de seu apartamento. Olhou o mostrador luminoso do relógio no criado-mudo. Já passava de três horas da madrugada. Pegou o roupão no pé da cama e foi à sala, querendo apenas silenciar aquelas batidas terríveis e obscenas em sua porta. A abriu e deparou com os dois, Chaffee e Corey. Chaffee sorria horrivelmente. Havia algo disforme no sorriso, algo no rosto que pertencia ao nevoeiro dum pesadelo. Inger levou um momento pra descobrir que o problema estava no rosto. A face estava inchada, meio arroxeada, a pele lustrosa e esticada. Desviou a cabeça e olhou a Corey, imaginando por que romperiam o sossego de sua noite.
Depois que todos foram à sala de estar, Corey encontrou o interruptor que inundou a tudo com uma claridade desagradável.
— O que aconteceu?, Corey.
— Inger... — A voz era sufocada, os punhos estavam cerrados. — Que deus-me-ajude agora, Inger. Não deverias ter feito o que fizeste...
— Digas a ela. — Ordenou Chaffee.
Corey estendeu o braço e tocou no braço dela.
— O machucaste, Inger. E poderia ter sido um ferimento muito grave.
— Diga a quem ela machucou. — Ordenou Chaffee.
— Ao mestre. — Disse Corey, os dentes cerrados. — Olhes o que fizeste com ele, Inger. Estás vendo?
— Me largues!, Corey. — Disse Inger.
— E agora digas a ela. — Acrescentou Chaffee. — Vamos, Corey, diga à senhorita Flood o que tem de fazer.
— Não te zangues comigo, querida. Depois desta noite não irei. Prometeu que nada mais haveria depois desta noite. Te deixaremos em paz. Nós dois. Mas tens de o fazer.
— Fazer o quê?
— Dar um beijo. — Disse Corey. — Sinto muito, Inger. Beijes o olho. O machucaste. Está realmente muito ferido. Beijes o olho, Inger!
A empurrava em direção a Chaffee, forçando o rosto dela a encontro do olho ferido. Chaffee estava sorrindo. Só que não era um sorriso mas uma máscara de morte, um risus sardonicus. Inger gritou e bateu em Corey, que tentou segurar suas mãos. Inger podia ver o sofrimento estampado no rosto dele. O detestava e ao mesmo tempo sentia pena. Corey conseguiu finalmente imobilizar os pulsos dela e estava gritando alguma coisa a Chaffee. Inger ficou inerte, enquanto Corey a conduzia ao sofá. Ela fechou os olhos e ouviu Corey dizer outras coisas a Chaffee, meio irado, meio apaziguador. Ela não abriu os olhos até ouvir Chaffee dizer:
— Muito bem, rapazinho. Já cumpriste teu dever.
Inger virou a cabeça e divisou Chaffee se encaminhando à porta. E Corey o seguiu. O escravo, obediente, cumprida a tarefa, acompanhava o amo. Saíram, deixando Inger sozinha.

Setembro passou e depois a maior parte de outubro.
Inger só teve notícia de Corey uma vez. Era uma carta, mal datilografada no papel timbrado do escritório. E dizia:
Inger
Sei que agora me odeias. Faz sentido dizer que eu te amo? Os grilhões se rompem no domingo, 28 de outubro. Então ligarei a ti. E não te culparei por algo que possas me dizer.
Corey
Ela conhecera um homem com quem simpatizara no início de outubro. Era atraente e parecia ter dinheiro. Saiu com ela três noites numa semana e tentou a seduzir no fim de semana seguinte, embora sem muito empenho. Quando Inger começou a chorar, ele a levou a confessar que estava apaixonada por outro homem. Ela tentara pensar em Corey como morto, desaparecido, alguém que fora embora a sempre. Mas sabia que nenhuma dessas coisas era verdade. Ele ainda estava perto e 28 de outubro, o dia da libertação, estava próximo. Inger disse ao homem que não o veria mais.
Na sexta-feira anterior ao dia 28 uma amiga chamada Sílvia foi à casa de Inger, a fim de lá passar o fim de semana. Seu apartamento estava sendo pintado e ela era alérgica ao cheiro de tinta. Ela passou a maior parte do tempo falando sobre um homem chamado Leonardo, que era casado, pedindo conselho a Inger, em voz queixosa, e ficando emburrada sempre que ouvia a opinião de que devia o largar.
Na noite de sábado, estimulada pelo álcool, Inger perdeu o retraimento normal e falou a Sílvia sobre Corey Jensen. A amiga ficou escutando, fascinada, seus próprios problemas românticos momentaneamente esquecidos. Concordou efusivamente com a conclusão de Inger:
— Terrível! Pavoroso! Podes estar certa de que ficas muito melhor sem ele!
Quanto mais falava a respeito de Corey, no entanto, quanto mais Sílvia concordava, mais Inger compreendia o quanto sentia saudade dele.
— Achas que telefonará? — Indagou Sílvia, de olhos arregalados. — Achas que terá essa coragem?
— Não sei.
Sílvia ainda estava dormindo, na manhã de domingo, quando Inger acordou e começou a olhar o telefone. Ainda não tocara às 2h, quando Sílvia foi embora, ansiosa em não perder um encontro vespertino com Leonardo.
Às 3h, Inger chegou à conclusão de que seu orgulho não valia o suspense. Ligou ao apartamento de Corey. O telefone estava ocupado e ela desligou apressadamente, na esperança de que fosse Corey tentando lhe falar. Nada aconteceu. Quinze minutos depois já discara o número tantas vezes que o dedo estava doendo. Se forçou a esperar meia hora antes de tornar a discar. O telefone, tocou muitas vezes mas ninguém atendeu. Inger se censurou por tomar uma decisão errada.
Vestiu uma capa pouco depois das 4h e saiu. Pegou um táxi pra ir ao apartamento de Corey, tentando não pensar no certo ou errado, em orgulho ou vergonha.
Inger esperava ter de enfrentar a necessidade de acampar na porta dele mas teve sorte. Corey abriu a porta, carregando o telefone como se fosse uma valise.
— Espero que seja a mim que estás ligando. — Disse ela, jovialmente. — Ou já esqueceste que prometeras telefonar?
Ele retorceu o fio do telefone entre os dedos.
— Juro que eu ligaria a ti, Inger. Só que aconteceu um problema. Me dês só um minuto.
— Está certo. Eu não estava mesmo esperando que te jogasses a meus pés. Mas ainda estou com teu anel e precisava descobrir se deseja que o conserve.
— Claro que é justamente isso o que estou querendo! As palavras deveriam ter sido acompanhadas por um abraço, mas Corey ainda estava ocupado com o telefone.
— Te sentes, meu bem. Esperes só um minuto, enquanto dou este telefonema.
Ele pôs o telefone na mesa e discou.
Alô? Aqui é Corey Jensen de novo. Já sei. Já sei. Mas pensei que poderias ter sabido algo desde... — A voz se alterou, furiosa. — Mas trabalhas pra ele! Está bem. Está bem... Basta dar meu recado.
Desligou, batendo o fone com toda força.
— O que foi?, Corey. Pareces não estar muito bem.
— Inger, faças o favor de esperar.
Estava discando outra vez, o rosto molhado de suor. Precisava fazer a barba, os fios brilhavam com a umidade.
— Marta? Sou eu, Corey. Sei que é muito difícil, mas viste Ray?... Não, não estou querendo insinuar algo. Queria apenas saber se o viste. Sabes se Ronnie está em casa? Não, não precisas te incomodar. Se não sabes onde Ray está, com certeza não vai aparecerá aí. Não posso falar agora. Já estou atrasado. Adeus, Marta.
Ele desligou. Antes que pudesse discar de novo, Inger interveio:
— Já chega!, Corey. Se não podes dispor dum minuto pra mim entre telefonemas, então é melhor eu ir embora!
Ele reagiu suavemente à ameaça:
— Não entendes, meu bem. Estou tentando o encontrar. Não está no apartamento e a criada não sabe onde.
— Quem?
— Ray Chaffee. Sumiu! — Corey esfregou as mãos na calça, nervosamente. — Acho que o desgraçado está tentando fugir!
— Por causa da aposta? Por que venceste?
O telefone tocou e ele saltou pra atender.
— Isso mesmo, sou senhor Jensen. É verdade, pedi a ligação. Alô? Senhor Valdez!... Isso mesmo. É urgente localizar senhor Chaffee. Acho que está embarcando num avião da Panagra hoje mas não sei qual é o vôo... É, sim, uma questão de vida ou morte... Uma pessoa de sua família está muito doente... Sei que é contra o regulamento, mas... Como?
Ele fez uma pausa, os olhos faiscando.
— Já entendi. Vôo 33, decolando às 6:30h... Não, um recado não adiantará. Poderá pensar que é um engano... Posso chegar ao aeroporto a tempo... Muito obrigado, senhor Valdez.
Desligou, exalando fúria e triunfo.
— É mesmo verdade! Está tentando trapacear indo à América do Sul!
— Não estou entendendo, Corey.
— A viagem em junho. Estava arrumando um emprego lá, preparando a fuga.
— Mas por quê? Ele perdeu tanto dinheiro assim?
— Tenho de sair agora, Inger. Preciso chegar ao aeroporto a tempo.
Se encaminhava ao armário mas Inger se postou na frente.
— Dinheiro? — Gritou Corey. — Achas mesmo que apostamos dinheiro?
— Mas apostastes!
— Só que nunca falei em dinheiro. Essa foi tua conclusão. E também não foi propriamente uma aposta. Foi uma troca, um acordo, uma barganha. Entendes agora?
— Corey!
— Agora pensa realmente que estou doente. Não é? Pois podes pensar o que bem quiseres. Mas uma coisa posso garantir, Inger: Não conseguirá escapar. Teve seu ano e agora terei o meu!
— Um ano? Está querendo dizer que é teu escravo agora, durante um ano?
— Isso mesmo, meu bem. senhor Chaffee pagará sua dívida. Me obrigou a pagar e agora é sua vez. Estou com o chicote na mão e terá de pular quando eu mandar, mesmo que eu tenha de o arrancar a força daquele avião!
Fez menção de seguir à porta e Inger o segurou no braço.
— Pelo-amor-de-deus!, Corey. Não faças isso! O deixes ir embora. Não podes fazer consigo o que fez contigo. Seria horrível demais. Não é humano!
— Pares com isso!, Inger. É uma longa viagem até o aeroporto e preciso...
— Corey, eu não poderia suportar outro ano assim!
— Mas será que não entendes que desta vez não será a mesma coisa? Desta vez é o escravo e eu o amo...
Isso não faz diferença! Não há diferença entre as duas coisas! Eu não poderia me casar contigo nessa circunstância. Não poderia suportar! Não me casarei contigo!, Corey.
Durante um momento a respiração dele se aquietou, os olhos perderam um pouco do brilho febril. Então disse:
— Sinto muito, Inger, mas não posso evitar. Nada posso fazer agora. Já é tarde demais.
Saiu rapidamente, fechando a porta. Inger se adiantou e tornou à abrir, gritando enquanto ele se afastava no corredor, a caminho do elevador, uma voz tão estridente como ela nunca imaginara que possuísse:
— Vás logo! Podes ir! Vás procurar teu precioso escravo! Espero que sede mui felizes um com o outro!
Inger fechou a porta, sentindo que devia chorar, mas incapaz de produzir lágrima. E pensou:
— Aposto que serão mesmo muito felizes. Tenho certeza de que serão.