Mostrando postagens com marcador IRMÃOS GRIMM. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador IRMÃOS GRIMM. Mostrar todas as postagens

sábado, 23 de julho de 2011

A PROTEGIDA DE MARIA-CONTO DOS IRMÃOS GRIMM


Na orla de uma extensa floresta morava um lenhador e sua esposa. Eles tinham apenas uma filha, que era uma menina de três anos. Mas eles eram tão pobres que não tinham mais o pão de cada dia e já não sabiam o que haveriam de dar-lhe para comer. Certa manhã o lenhador foi com grande preocupação até a floresta para cuidar de seu trabalho e, quando estava cortando lenha, lá apareceu de repente uma mulher alta e bela que trazia na cabeça uma coroa de estrelas cintilantes e lhe disse “Sou a Virgem Maria, mãe do Menino Jesus, e tu és pobre e necessitado: traga-me tua filha, vou levá-la comigo, ser sua mãe e cuidar dela.” O lenhador obedeceu, foi buscar a filha e entregou-a à Virgem Maria, que a levou consigo para o Céu. Lá a menina passava muito bem, comia pão doce e bebia leite açucarado, e seus vestidos eram de ouro, e os anjinhos brincavam com ela. Quando completou quatorze anos, a Virgem Maria a chamou e disse “Querida menina, partirei em uma longa viagem; tome sob tua guarda as chaves das treze portas do reino celestial; tu poderás abrir doze delas e contemplar os esplendores que há lá dentro, mas a décima terceira, cuja chave é esta pequena aqui, está proibida para ti: cuidado para não abri-la, pois seria a tua infelicidade.” A menina prometeu ser obediente e, quando a Virgem Maria havia partido, começou a olhar os cômodos do reino celestial: a cada dia abria um deles, até que todos os doze tinham sido vistos. Em cada um dos cômodos estava sentado um apóstolo cercado de grande esplendor, e toda aquela suntuosidade e magnificência dava grande alegria a ela, e os anjinhos, que sempre a acompanhavam, alegravam-se também. Até que, então, faltava apenas a porta proibida, e ela sentiu um grande desejo de saber o que estava escondido atrás dela. Por isso disse aos anjinhos “Não abrirei a porta por inteiro e também não entrarei, mas vou entreabri-la para olharmos um pouquinho pela fresta”. “Oh, não,” disseram os anjinhos, “seria um pecado: a Virgem Maria proibiu fazer isso, além do mais, isso poderia facilmente trazer-te a desgraça.” Então ela se calou, mas o desejo não silenciou em seu coração, mas, ao contrário, continuou roendo e corroendo-a com força, não lhe permitindo ficar em paz. E certa vez, quando os anjinhos haviam todos saído, pensou “Agora estou totalmente sozinha e poderia olhar lá dentro, afinal, ninguém ficará sabendo o que fiz”. Procurou a chave e, tão logo a apanhou, enfiou-a na fechadura e, uma vez ela estando lá, sem pensar duas vezes, girou-a. A porta abriu de um salto e ela viu a Trindade sentada em meio ao fogo e à luz. Ficou parada um momento, observando tudo com assombro, depois tocou de leve com o dedo aquela luz, e o dedo ficou totalmente dourado. No mesmo instante foi tomada de intenso pavor, bateu a porta com força e correu dali. Mas o pavor não diminuía, ela podia fazer o que fosse mas o coração continuava batendo acelerado e não havia como acalmá-lo: assim também o ouro continuou no dedo e não saía de jeito algum, não importa o quanto lavasse e esfregasse. Não passou muito tempo e a Virgem Maria retornou de sua viagem. Ela chamou a menina e solicitou as chaves de volta. Quando ela apresentou o molho, a Virgem olhou em seus olhos e perguntou: “E não abriste mesmo a décima terceira porta?” “Não”, respondeu. Então ela pousou a mão sobre o coração da menina e sentiu como ele estava batendo sobressaltado, de modo que percebeu que sua ordem tinha sido desobedecida e a porta fora aberta. Então perguntou mais uma vez: “Realmente não a abriste?” “Não”, respondeu a menina pela segunda vez. Aí a Virgem avistou o dedo que ficara dourado pelo toque do fogo celestial e teve certeza de que ela pecara, e perguntou pela terceira vez: “Não a abriste?” “Não”, respondeu a menina pela terceira vez. Então a Virgem Maria disse: “Tu não me obedeceste e além disso ainda mentiste, portanto não és mais digna de permanecer no Céu.” Nesse momento a menina caiu em profundo sono e quando despertou jazia lá embaixo sobre a terra em meio a um lugar agreste. Quis gritar, mas não conseguiu emitir qualquer som. Levantou-se de um salto e quis fugir, mas para onde quer que se dirigisse sempre era detida por sebes espinhosas que não conseguia atravessar. Nesse ermo em que estava encerrada havia uma velha árvore oca que agora teria de ser sua morada. Era lá para dentro que rastejava quando caía a noite, e era lá que dormia, e, quando vinham chuvas e tempestades, era lá que buscava abrigo. Levava uma vida lastimável, e quando recordava como tudo havia sido tão bom no Céu, e como os anjinhos costumavam brincar com ela, chorava amargamente. Raízes e frutas silvestres eram seus únicos alimentos, e ela os procurava ao redor até onde podia ir. No outono juntava as nozes e folhas que haviam caído no chão e levava-as para o oco da árvore; comia as nozes no inverno e, quando chegavam a neve e o gelo, arrastava-se como um animalzinho para debaixo das folhas para não sentir frio. Não demorou muito e suas vestimentas começaram a se rasgar e um pedaço após outro foi caindo do corpo. Tão logo o Sol voltava a brilhar trazendo o calor, ela saía e sentava-se diante da árvore e seus longos cabelos encobriam-na de todos os lados como um manto. Assim foi passando ano após ano e ela ia experimentando a miséria e sofrimento do mundo. Uma vez, quando as árvores tinham acabado de cobrir-se outra vez de verde, o rei que lá reinava estava caçando na floresta e perseguia uma corça, e como esta havia se refugiado nos arbustos que rodeavam a clareira da floresta, ele desceu do cavalo e com sua espada foi arrancando o mato e abrindo caminho para poder passar. Quando finalmente chegou do outro lado, avistou sob a árvore uma donzela de maravilhosa beleza que lá estava sentada totalmente coberta até os dedos dos pés pelos seus cabelos dourados. Ficou parado admirando-a com assombro até que finalmente dirigiu-lhe a palavra e disse: “Quem és tu? Por que estás aqui no ermo?” Mas ela não respondeu, pois sua boca estava selada. O rei falou novamente: “Queres vir comigo até meu castelo?” Ela apenas assentiu levemente com a cabeça. Então o rei a tomou nos braços, carregou-a até seu corcel e cavalgou com ela para casa, e, quando chegou ao castelo real, ordenou que a vestissem com belos trajes e tudo lhe foi dado em abundância. Embora não pudesse falar, ela era afável e bela, e assim ele começou a amá-la do fundo de seu coração e, não demorou muito, casou-se com ela. Quando se havia passado cerca de um ano, a rainha deu à luz um filho. Nessa mesma noite, quando estava deitada sozinha em seu leito, apareceu-lhe a Virgem Maria, que disse “Se quiseres dizer a verdade e confessar que abriste a porta proibida, destravarei tua boca e devolverei tua fala, mas se insistires no pecado e teimares em negar, levarei comigo teu filho recém-nascido.” Nesse momento foi dado à rainha responder, porém ela manteve-se obstinada e disse: “Não, não abri a porta proibida”, e a Virgem Maria tomou-lhe o filho recém-nascido dos braços e desapareceu com ele. Na manhã seguinte, quando não foi possível encontrar a criança, começou a correr um murmúrio no meio do povo de que a rainha comia carne humana e teria matado seu próprio filho. Ela ouvia tudo isso e não podia dizer nada em contrário, mas o rei recusou-se a acreditar naquilo porque a amava muito. Depois de um ano nasceu mais um filho da rainha. Naquela noite voltou a parecer a Virgem Maria junto dela dizendo: “Se quiseres confessar que abriste a porta proibida, devolverei teu filho e soltarei tua língua; mas se insistires no pecado e negares, levarei também este recém-nascido comigo.” Então a rainha disse novamente: “Não, não abri a porta proibida”, e a Virgem tomou-lhe a criança dos braços e levou-a consigo para o Céu. De manhã, quando mais uma vez uma criança havia desaparecido, o povo afirmou em voz bem alta que a rainha a tinha devorado, e os conselheiros do rei exigiram que ela fosse levada a julgamento. Mas o rei a amava tanto que não quis acreditar em nada, e ordenou aos conselheiros que, se não estivessem dispostos a sofrer castigos corporais ou mesmo a pena de morte, que deixassem de insistir no assunto. No ano seguinte a rainha deu à luz uma linda filhinha e, pela terceira vez, apareceu à noite a Virgem Maria e disse: “Acompanha-me”. Tomou-a pela mão e conduziu-a até o Céu, mostrando-lhe então os dois meninos mais velhos, que riam e brincavam com o globo terrestre. A rainha alegrou-se com aquilo e a Virgem Maria disse: “Teu coração ainda não se abrandou? Se confessares que abriste a porta proibida, devolverei teus dois filhinhos.” Mas a rainha respondeu pela terceira vez “Não, não abri a porta proibida”. Então a Virgem Maria a fez descer novamente à terra, tomando-lhe também a terceira criança. Na manhã seguinte, quando a notícia correu, todo o povo gritava “a rainha come gente, ela tem que ser condenada”, e o rei não conseguiu mais conter seus conselheiros. Ela foi submetida a julgamento e, como não podia responder e se defender, foi condenada a morrer na fogueira. Quando haviam juntado a lenha e ela estava amarrada a um pilar e o fogo começava a arder a sua volta, então derreteu-se o duro gelo do orgulho e seu coração encheu-se de arrependimento e ela pensou: “Ah, se antes de morrer eu ao menos pudesse confessar que abri a porta”. Nesse momento voltou-lhe a voz e ela gritou com força “Sim, Maria, eu a abri!” No mesmo instante uma chuva começou a cair do céu apagando as chamas do fogo, e sobre sua cabeça irradiou uma luz, e a Virgem Maria desceu tendo os dois meninos, um de cada lado, e carregando a menina recém-nascida no colo. Ela falou-lhe com bondade: “Quem confessa e se arrepende de seu pecado, sempre é perdoado”, e entregou-lhe as três crianças, soltou-lhe a língua e deu-lhe de presente a felicidade para a vida inteira.

terça-feira, 14 de junho de 2011

A AMOREIRA -CONTO DOS IRMÃOS GRIMM


Há muito tempo havia um homem rico casado com uma mulher muito
bonita e religiosa; eles se amavam muito mas não tinham filhos, e por mais que desejassem tê-los, não apareciam. À frente da casa havia uma amoreira. Em certo inverno a mulher estava debaixo da amoreira descascando uma maçã e cortou o dedo; o sangue escorreu e caiu na neve. “Ah”, disse a mulher com profundo suspiro, olhando tristonha para aquele sangue, “se eu tivesse um menino vermelho como o sangue e branco como a neve!” Mal acabara de falar sentiu-se serena como se tivesse um pressentimento. Voltou para casa.
Passou uma lua e a neve desapareceu; após duas luas a terra reverdeceu;
após três luas desabrocharam as flores; após quatro luas todas as árvores do bosque se revestiram de galhos viçosos; os pássaros cantavam ressoando por todo o bosque e as flores caíam das árvores; passara a quinta lua o perfume da amoreira era tão suave que a mulher sentiu o coração palpitar de felicidade ecaiu de joelhos, fora de si de alegria; depois da sexta lua as frutas iam se tornando mais grossas e ela se acalmou; na sétima lua colheu algumas amoras e comeu-as avidamente, mas se tornou triste e adoeceu; passou a oitava lua e ela
chamou o marido e lhe disse chorando: “Se eu morrer, enterra-me debaixo da amoreira.” Depois voltou a ficar tranqüila e alegre até que uma outra lua, a nona, passou; então nasceu-lhe um menino, alvo como a neve e vermelho como o sangue e, quando o viu, sua alegria foi tanta que morreu.
O marido a enterrou sob a amoreira e chorou muito durante um ano; no
ano seguinte chorou menos e, finalmente, parou de chorar e se casou novamente.
Da segunda mulher teve uma filha. Quando a mulher olhava a filha sentia que a amava com imensa ternura; mas quando olhava o menino sentia algo a lhe aguilhoar o coração e achava que era um estorvo para todos. Pensava continuamente o que deveria fazer para que a herança passasse toda à filha. O demônio lhe inspirava os piores sentimentos; passou a odiar o rapazinho, a enxotá-lo de um canto para o outro, a esmurrá-lo e empurrá-lo, de maneira que o pobre menino vivia completamente aterrorizado e não encontrava um minuto
de paz.
Certo dia a mulher se dirigiu à despensa e a filhinha a seguiu. “Mamãe”,
pediu, “dá-me uma maçã.” “Sim, minha filhinha”, disse a mulher tirando uma bela maçã de dentro do caixão, o qual tinha uma tampa muito grossa e pesada além de uma grossa e cortante fechadura de ferro. “Mamãe”, disse a menina, “não dás uma também a meu irmão?” A mulher se irritou, mas respondeu:
“Dou sim, quando ele voltar da escola”. Quando da janela o viu chegando foi como se estivesse possessa; tirou a maçã da mão da filha dizendo: “Não deves ganhá-la antes de teu irmão.” Jogou a maçã dentro do caixão e o fechou.
Quando o menino entrou ela lhe disse, com fingida doçura: “Meu filho, queres uma maçã?” e lançou-lhe um olhar arrevezado. “Oh, mamãe” disse o menino “que cara assustadora tens! Sim, dá-me a maçã.” “Vem comigo” disse ela animando-o, e levantou a tampa “tira tu mesmo a maçã.” Quando o menino se debruçou para pegar a maçã, o demônio tentou-a e paff! ela deixou cair a tampa cortando-lhe a cabeça, que rolou sobre as maçãs. Então se sentiu tomada de pavor e pensou: “Ah, como poderei me livrar dele?!” Subiu então ao seu quarto, tirou da primeira gaveta da cômoda um lenço branco, ajeitou a cabeça nodevido lugar atando-lhe em seguida o lenço, depois o sentou numa cadeiraperto da porta, com a maçã na mão.
Pouco depois Marleninha foi à cozinha, onde a mãe estava mexendo num
caldeirão cheio de água quente. “Mamãe, meu irmão está sentado perto da porta ... todo branco, e tem uma maçã na mão; pedi-lhe que ma desse, mas ele não respondeu e eu me assustei.” “Volta lá” disse a mãe “e se não quiser te responder dá-lhe uma bofetada.” Marleninha voltou e disse: “Meu irmão, dá- me um pedaço de maçã!” Como ele continuou calado deu-lhe uma bofetada e a cabeça lhe caiu. Ela começou a chorar e correu para a mãe, dizendo: “Ah, mamãe, arranquei a cabeça de meu irmão!” E chorava sem parar. “Marleninha, que fizeste!” disse a mãe. “Acalma-te, não chores, para que ninguém o perceba; não há mais remédio! Vamos cozinhá-lo em molho escabeche.”
A mãe pegou o menino, cortou-o em pedaços, pôs numa panela e
cozinhou com vinagre. Marleninha, porém, chorava sem parar e suas lágrimas caíam todas dentro da panela. Assim não precisaram salgá-lo.
O pai chegou em casa, sentou-se à mesa e perguntou: “Onde está meu
filho?” Então a mãe trouxe-lhe uma travessa cheia de carne em escabeche.
Marleninha chorava sem se conter. O pai repetiu: “Onde está meu filho?” “Ele foi para o campo, para a casa de um parente onde deseja passar algum tempo”
respondeu a mãe. “E que vai fazer lá? Saiu sem ao menos se despedir de mim!”
“Ora, tinha vontade de ir e me pediu para ficar lá algumas semanas. Será bem tratado, verás!” “Ah, isso me aborrece!” retorquiu o homem, “não está direito,devia ao menos se despedir de mim.” Assim dizendo começou a comer.
“Marleninha, por que choras?” perguntou ele. “Teu irmão voltará logo. Oh mulher, como está gostosa esta comida! Dá-me mais um pouco.” Mais comia mais queria comer, e dizia: “Dá-me mais, não sobrará nada para vocês; parece que é só para mim.” E comia, comia, jogando os ossinhos debaixo da mesa. Marleninha foi buscar seu lenço de seda mais bonito, na última gaveta da cômoda, recolheu todos os ossos e ossinhos que estavam debaixo da mesa, amarrou-os bem no lenço e levou-os para fora, chorando lágrimas de sangue.
Enterrou-os entre a relva verde, sob a amoreira, e tendo feito isso se sentiu logo aliviada e não chorou mais. A amoreira começou então a se mover, os ramos se apartavam e se reuniam de novo, como quando alguém bate palmas de alegria.
Da árvore se desprendeu uma nuvem e dentro da nuvem parecia ter um fogo ardendo; do fogo saiu voando um lindo passarinho, que cantava maravilhosamente e alçou vôo rumo ao espaço; quando desapareceu a amoreira voltou ao estado de antes e o lenço com os ossos havia desaparecido.
Marleninha se sentiu aliviada e feliz, como se o irmão ainda estivesse vivo.
Voltou para casa muito contente, sentou-se à mesa e comeu.
O pássaro voou para longe, foi pousar sobre a casa de um ourives e se pôs
a cantar:

Minha mãe me matou,
meu pai me comeu,
minha irmã Marleninha
meus ossos juntou,
num lenço de seda os amarrou,
debaixo da amoreira os ocultou,
piu, piu, que lindo pássaro sou!

O ourives estava na oficina confeccionando uma corrente de ouro; ouviu o pássaro cantando sobre o telhado e achou o canto maravilhoso. Levantou-se para ver e ao sair perdeu um chinelo e uma meia, mas foi ao meio meio da rua mesmo com um chinelo e uma meia só. Estava com o avental de couro, numadas mãos tinha a corrente de ouro e na outra a pinça; o sol estavaresplandecente e iluminava toda a rua. Ele se deteve, e olhando para o pássaro disse: “Pássaro, como cantas bem! Canta-me outra vez a tua canção.” “Não,” disse o pássaro, “não canto de graça duas vezes; dá-me a corrente de ouro queeu a cantarei outra vez.” “Aqui está a corrente, agora canta outra vez!” disse o ourives. O pássaro então voou e foi buscar a corrente de ouro, apanhou-a com a patinha direita, sentou-se diante do ourives e cantou:

Minha mãe me matou,
meu pai me comeu,
minha irmã Marleninha
meus ossos juntou,
num lenço de seda os amarrou,
debaixo da amoreira os ocultou,
piu, piu, que lindo pássaro sou!


Depois o pássaro voou para a casa de um sapateiro; pousou sobre o
telhado e cantou:
Minha mãe me matou,
meu pai me comeu,
minha irmã Marleninha
meus ossos juntou,
num lenço de seda os amarrou,
debaixo da amoreira os ocultou,
piu, piu, que lindo pássaro sou!

O sapateiro o ouviu e correu à porta em mangas de camisa; olhou para o
telhado resguardando os olhos com a mão para que o sol não o cegasse.
“Pássaro, como cantas bem!” E da porta chamou: “mulher, vem cá, está aqui um pássaro que canta divinamente! Vem ver.” Depois chamou a filha, os filhos, os ajudantes, o criado e a criada, e todos foram para a rua ver o passarinho, que era realmente lindo com as penas vermelhas e verdes, em volta do pescoço parecia de ouro puro e os olhinhos eram cintilantes como estrelas. “Pássaro, canta outra vez a tua canção!” pediu o sapateiro. “Não, “respondeu o pássaro,“não canto de graça duas vezes, tens que me dar alguma coisa.” “Mulher, atrásda banca, na parte mais alta, tem um lindo par de sapatos vermelhos, traz aqui”
disse o sapateiro. A mulher foi buscar os sapatos. “Aqui tens, pássaro; agora canta novamente a tua canção.” O pássaro foi buscar os sapatos com a pataesquerda, depois voou para o telhado e cantou:

Minha mãe me matou,
meu pai me comeu,
minha irmã Marleninha
meus ossos juntou,
num lenço de seda os amarrou,
debaixo da amoreira os ocultou,
piu, piu, que lindo pássaro sou!

Terminado o canto foi-se embora, levando a corrente na pata direita e os
sapatos na esquerda, e voou para longe, longe, sobre um moinho, e o moinho girava fazendo clipe clape, clipe clape, clipe clape. E na porta do moinho estavam sentados os ajudantes do moleiro, que batiam com o martelo na mó: tique taque, tique taque, tique taque; e o moinho girava: clipe clape, clipe clape,clipe clape. Então o pássaro pousou numa tília em frente ao moinho e cantou:

Minha mãe me matou,
E um ajudante parou de trabalhar.
meu pai me comeu,
Outros dois ajudantes pararam de trabalhar para ouvir.
minha irmã Marleninha
Outros quatro pararam de trabalhar.
meus ossos juntou,
num lenço de seda os amarrou,
Oito ainda continuavam batendo.
debaixo da amoreira
Mais outros cinco pararam.
os ocultou,
Ainda mais um, mais outro.
piu, piu, que lindo pássaro sou!

Então o último ajudante também largou o trabalho e pôde ouvir o fim do
canto. “Pássaro, como cantas bem! Deixa-me ouvir-te também, canta outra vez.”“Não” disse o pássaro, “não canto de graça duas vezes; dá-me essa mó e cantarei de novo.” “Sim, se fosse só minha eu ta daria.” “Sim” disseram osoutros, “se cantar novamente a terá.” Então o pássaro desceu e os moleiros todos, pegando uma alavanca, suspenderam a mó, dizendo: oop, oop, oop, oop! O pássaro enfiou a cabeça no buraco da mó como se fosse uma coleira; depois voltou para a árvore e cantou:

Minha mãe me matou,
meu pai me comeu,
minha irmã Marleninha
meus ossos juntou,
num lenço de seda os amarrou,
debaixo da amoreira os ocultou,
piu, piu, que lindo pássaro sou!

Acabando de cantar abriu as asas, levando na pata direita a corrente de
ouro, na esquerda o par de sapatos e no pescoço a mó, e foi-se embora voando
para a casa do pai.
Na sala estavam o pai, a mãe e Marleninha sentados à mesa; o pai disse:
“Ah, que alegria; estou me sentindo tão feliz!” “Oh não” disse a mãe, “eu estou com medo, assim como quando se anuncia forte tempestade.” Marleninha, sentada em seu lugar, chorava, chorava. Então chegou o pássaro, e quando pousou em cima do telhado o pai disse: “Ah, que alegria! Como o sol brilha lá fora! É como se tornasse a ver um velho amigo!” “Ah não” disse a mulher, “eusinto tanto medo, estou batendo os dentes e parece-me ter fogo nas veias.”
Assim dizendo tirou o corpete. Marleninha continuava sentada em seu lugar e chorava, segurando o avental diante dos olhos e banhando-o de lágrimas. Então o pássaro pousou sobre a amoreira e cantou:

Minha mãe me matou,

e a mãe tapou os ouvidos e fechou os olhos para não ver e não ouvir, mas
zumbiam-lhe os ouvidos como se fosse o fragor da tempestade e os olhos lhe ardiam como se fossem tocados pelo raio.

meu pai me comeu,

“Ah mãe” disse o homem, “há aí um pássaro que canta tão bem! E o sol
está tão brilhante! E o ar recende a cinamomo.”

minha irmã Marleninha

Então Marleninha inclinou a cabeça nos joelhos e prorrompeu num choro violento, mas o homem disse: “Vou lá fora, quero ver esse pássaro de perto.”
“Não vás, não!” disse a mulher, “parece-me que a casa toda está estremecendo eardendo.” O homem porém saiu.

meus ossos juntou,
num lenço de seda os amarrou,
debaixo da amoreira os ocultou,
piu, piu, que lindo pássaro sou!

Com isso o pássaro deixou cair a corrente de ouro exatamente em volta do pescoço de seu pai, servindo-lhe esta tão bem como se fora feita especialmente para ele. O homem entrou em casa e disse: “Se visses que lindo pássaro! Deu-me esta bela corrente de ouro, e é tão bonito!” Mas a mulher, transida de medo, caiu estendida no chão, deixando cair a touca da cabeça. E o pássaro cantounovamente:


Minha mãe me matou,

“Ah, se eu pudesse estar mil léguas debaixo da terra para não ouvi-lo!”

meu pai me comeu,

A mulher se debateu, e parecia morta.

minha irmã Marleninha

“Oh” disse Marleninha, “eu também quero ir lá fora; quem sabe se o
pássaro dá algum presente também a mim!” E saiu.


meus ossos juntou,
num lenço de seda os amarrou,

e atirou-lhe os sapatos.

debaixo da amoreira os ocultou,
piu, piu, que lindo pássaro sou!

Marleninha então se sentiu alegre e feliz. Calçou os sapatos vermelhos;
pulando e dançando, entrou em casa. “Estava tão triste quando saí e agoraestou tão alegre! Que pássaro maravilhoso! Deu-me um par de sapatosvermelhos.” “Oh não” disse a mulher; ergueu-se de um salto e os cabelos se lhe eriçaram como labaredas de fogo. “Parece-me que vai cair o mundo, vou sair também, quem sabe não me sentirei melhor?”


Quando transpôs a soleira da porta pac! o pássaro lhe atirou na cabeça a
pesada mó, que a esmigalhou. O pai e Marleninha, ouvindo isso, correram e viram se desprender do solo fogo e fumaça, e quando tudo desapareceu eis que surge o irmãozinho, estendendo as mãos para o pai e Marleninha; e muito felizes entraram os três em casa, sentaram-se à mesa e começaram a comer.